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Discurso proferido na solenidade de transmissão do cargo de Reitor

Publicado: Quarta, 24 de Fevereiro de 2010, 08h09

Discurso do reitor Helio Waldman, proferido na solenidade de transmissão de cargo de reitor, em 18 de fevereiro de 2010, no Teatro Municipal de Santo André.


Começa hoje uma nova etapa na construção da Universidade Federal do ABC. Inicia-se o primeiro mandato de Reitor, gerado a partir de discussões envolvendo toda a comunidade universitária, cuja escolha foi referendada pelas autoridades da República. Através desse processo, a Universidade se apropria, em nome da Nação, do projeto pedagógico engendrado em 2005 pelo empenho de dezenas de cientistas e intelectuais mobilizados pelo MEC, sob a inspirada liderança de Luiz Bevilacqua.

Damos assim um importante passo rumo à institucionalidade plena, requisito para a sonhada autonomia universitária, de que tanto se fala mas pouco ainda se sabe na prática. O mandato que ora recebo me confere uma grande responsabilidade: a de completar e consolidar a implantação da Universidade Federal do ABC e, através dela, do modelo inovador de ensino superior sobre o qual se apóia a sua proposta pedagógica. A UFABC não é simplesmente um novo espécime. Ela representa uma nova espécie de Universidade, estruturada para atender a demanda por ensino superior num novo século, marcado pela primazia do conhecimento como fator de cidadania e poder.

Tal como nos foi legada pelo século XX, a educação superior foi moldada para atender as necessidades da sociedade industrial. Por isso, ela valorizava sobretudo o conhecimento especializado, e se dirigia basicamente à população da faixa etária dos 18 aos 24 anos, da qual apenas uma pequena parte era atendida em países pouco desenvolvidos como o nosso, como ainda é. Em 2008, por exemplo, o Brasil tinha 23 milhões de jovens nessa faixa etária, mas apenas 3 milhões e 200 mil estavam matriculados no ensino superior, dos quais apenas 800 mil em instituições públicas.

Posto que o conhecimento especializado fosse destinado a poucos, o crescimento industrial gerado por ele sustentou um enorme aumento da população ao longo do século XX, e mudou radicalmente o estilo e a qualidade de vida no planeta. Hoje, mais da metade da população mundial já é urbana, e a urbanização continua progredindo em todos os continentes. Essas mudanças aumentam significativamente o acesso à informação e ao conhecimento, acelerado inicialmente pelo advento do rádio, depois da TV, e agora pela expansão da Internet.

Por outro lado, o aumento indiscriminado da produção e do consumo industriais e agroindustriais gerou uma série de externalidades que constrangem a vida no planeta. Elas vão desde ameaças silenciosas como o buraco na camada de ozônio, descoberto graças à cuidadosa observação científica da atmosfera; até as perdas cotidianas de qualidade de vida associadas aos congestionamentos e outros transtornos das grandes metrópoles; e mais recentemente a evidências de mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global, causado ao menos em parte por atividades humanas. Mesmo que não gerasse essas externalidades, os paradigmas industriais herdados do século XX já seriam insustentáveis a longo prazo, de vez que se baseiam no uso de recursos não-renováveis ameaçados de exaustão, como os combustíveis fósseis, para gerar energia e insumos.

Essas inconsistências fazem da sustentabilidade - ambiental, social, e econômica - o grande desafio do século XXI. Para enfrentá-lo, teremos que mobilizar todo o conhecimento disponível, e ainda ampliá-lo e disseminá-lo, pois a batalha da sustentabilidade só será vencida se envolver toda a população. Ela exige a substituição da Sociedade Industrial pela chamada Sociedade do Conhecimento, gerada tanto pela grande disponibilidade como pela inusitada necessidade de conhecimento. Nessa nova sociedade, o trabalhador industrial do passado dará lugar ao trabalhador do conhecimento, de nível superior, capaz de buscar e aplicar o conhecimento certo no lugar certo, na hora certa, na busca de soluções sustentáveis para a organização do trabalho e da vida. O treinamento especializado para tarefas repetitivas ou para a aplicação de soluções padronizadas dará lugar a uma educação mais generalista e analítica, de maneira que os trabalhadores do conhecimento possam compreender os aspectos técnicos e as implicações humanas e sociais, inclusive no âmbito global, das questões e soluções em discussão. Além disso, os novos trabalhadores precisarão se atualizar periodicamente ou até constantemente, dando origem a uma enorme demanda por educação continuada de nível superior, cujo atendimento ainda está longe de ser dimensionado e equacionado, mas que certamente representará um grande desafio para a Universidade do século XXI. É certo que não será possível fechar essa equação sem o uso de novas tecnologias educacionais, mas isso só poderá ser feito com segurança após cuidadosa avaliação da sua eficácia e qualidade pedagógica.

O conhecimento especializado continuará tão necessário quanto sempre, mas terá que descer do pedestal em que foi colocado no século passado para se juntar a outros saberes na busca de um profissionalismo que respeite o contexto humano, ambiental e sócio-econômico. Além disso, muitas especialidades serão rapidamente superadas pela aceleração do desenvolvimento tecnológico, forçando o especialista a reciclar com freqüência seus conhecimentos. Daí a necessidade do ensino superior dar precedência, tanto no tempo como na hierarquia das prioridades pedagógicas, à formação básica do educando em contexto interdisciplinar. Através dela, o aluno assimila a atitude indagadora da ciência e se mune de habilidades analíticas e conhecimentos teóricos que o capacitam a dialogar com os especialistas e se tornar um deles com autonomia intelectual, usando com desenvoltura os modernos meios de comunicação. Para esse fim, a UFABC estabelece que seus alunos ingressem na Universidade cursando um Bacharelado Interdisciplinar que os dotará de um substrato teórico-conceitual, de valor e validade permanentes, capacitando-os ao exercício pleno da cidadania num mundo cada vez mais complexo; ou a uma ou mais profissionalizações posteriores ao longo da vida, se assim desejarem.

Outro requisito importante da educação superior no século XXI será o da internacionalização, de vez que a sustentabilidade só pode ser realizada em escala planetária. Aqui, porém, é necessário fazer algumas ressalvas sobre o que se entende por internacionalização. No século XX, sempre que se falava em internacionalização, subentendia-se uma aproximação com o Primeiro Mundo. Hoje, é necessário rever essa noção. Na busca da sustentabilidade, a internacionalização que se impõe é a aproximação com todos os mundos, com todos os povos, culturas e tradições. Uma sociedade multirracial como a nossa tem que começar esse empreendimento em casa, sob pena de perder a credibilidade. Por isso, o aprofundamento das nossas relações internacionais deve ser atrelado ao das relações interculturais, dentro e fora do País.

Como se vê, a Universidade está sendo desafiada a mudar para permanecer relevante num mundo em mutação. Como Universidade que se pretende de ponta para o século XXI, a UFABC vem respondendo a esses desafios com algumas iniciativas relevantes tanto no plano pedagógico como institucional. Iniciou suas atividades em 2006 lançando seu Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, com 1500 vagas, em Santo André. Em 2009, passou a oferecer também um Bacharelado em Ciências e Humanidades, com 200 vagas, cujas atividades começam dentro de poucos meses em São Bernardo. Assim, a proposta pedagógica da Universidade procura imergir o aluno em ambiente indagador de abrangência interdisciplinar, atribuindo às disciplinas científicas um papel acessório e não central. O aprendizado se dá em ambiente interdisciplinar, aberto ao questionamento e ao reconhecimento da complexidade das questões reais, atento às armadilhas do reducionismo. A própria estrutura da Universidade, sem Departamentos, procura garantir amplo espaço para a interdisciplinaridade em todas as suas atividades, ao invés de confiná-la em espaços periféricos, como ainda ocorre em Universidades mais tradicionais.

Além disso, a UFABC já estruturou 17 opções de profissionalização para os futuros Bacharéis em Ciência e Tecnologia, e já planeja 4 outras opções para os futuros Bacharéis em Ciências e Humanidades. Atenta à conjuntura nacional, a UFABC reservou mil vagas para oito cursos de Engenharia, abertos aos futuros Bacharéis em Ciência e Tecnologia. Quando efetivamente ocupadas e aproveitadas, essas vagas contribuirão para resolver o angustiante déficit de engenheiros do País, resultante do baixo investimento no ensino tecnológico ocorrido nas últimas décadas.

Considerando o pouco tempo decorrido desde a criação legal da Universidade em 2005 e do início de suas atividades em setembro de 2006, muito foi feito, ainda que muito ainda esteja por fazer. Com satisfação, observamos que a proposta pedagógica da UFABC já é bem compreendida em âmbito nacional pelos principais interessados, conforme testemunha a alta procura pelo nosso Bacharelado Interdisciplinar no Sistema de Seleção Unificada por parte dos estudantes que fizeram o ENEM de 2009. Além disso, cerca de 15 Universidades Federais já oferecem ou planejam oferecer Bacharelados Interdisciplinares, configurando uma tendência de adoção da nossa proposta pedagógica em escala nacional.

Esses resultados refletem o trabalho árduo e apaixonado dos três Reitores que me precederam, de suas equipes dirigentes, da dedicação dos servidores docentes e técnico-administrativos, do entusiasmo esperançoso dos alunos. Nosso primeiro Reitor, Hermano Tavares, iniciou tudo a partir do zero no plano material, mas animado pelo projeto recebido da Comissão de Implantação. Em menos de um ano, promoveu os concursos para a admissão dos primeiros docentes, dando a tônica de qualidade que é o penhor de qualquer projeto acadêmico; montou uma infraestrutura mínima para o início das aulas, organizou o primeiro Vestibular, deu início às atividades didáticas e à construção do campus de Santo André. Ciente da magnitude das carências educacionais do País, não admitiu que pensássemos pequeno, insistindo sempre na abertura das 1500 vagas desde o primeiro momento, sem gradualismos desnecessários. Ao nosso segundo Reitor, Luiz Bevilacqua, já éramos devedores quando ele assumiu a Reitoria, pela sua prévia atuação como Presidente da Comissão de Implantação, mentor e idealizador do projeto pedagógico que é a marca da UFABC e seu mito fundador. Assumiu a Reitoria em momento difícil, no qual o projeto corria riscos, prontamente afastados graças à sua liderança inconteste. Instalou os Conselhos Superiores da Universidade, promoveu a consolidação do Projeto Pedagógico do Bacharelado em Ciência e Tecnologia, e inaugurou o Bloco B no campus de Santo André. Nosso terceiro Reitor, Adalberto Fazzio, ampliou significativamente o corpo docente, promoveu as eleições dos Diretores dos três Centros interdisciplinares e, reconhecendo a insuficiência da abordagem científico-tecnológica na representação do mundo para aqueles que nele vivemos, promoveu a criação do Bacharelado Interdisciplinar em Ciências e Humanidades. Colocou em funcionamento o Restaurante Universitário, melhorando assim as condições de permanência dos alunos no campus. Coube ainda a Fazzio iniciar o processo de ampla consulta eleitoral que culminou no primeiro mandato de Reitor, cujo início é marcado por essa solenidade. Tive a honra de pertencer às equipes desses três grandes brasileiros, aos quais rendo minha homenagem pelos exemplos de tenacidade, clarividência e integridade a serviço do País.

Nos próximos quatro anos, será necessário dar seqüência à implantação do modelo pedagógico, ao mesmo tempo em que se inicia a sua avaliação. A própria adoção do modelo por outras instituições, ao colocar em cheque os paradigmas herdados do século passado, fará crescer a demanda pela sua avaliação. É importante que a UFABC se antecipe a essas pressões, criando uma estrutura própria de avaliação, que nos dê uma idéia mais acurada dos nossos próprios resultados, problemas e limitações. Dentre as questões mais agudas a serem abordadas, figuram com destaque os altos índices de evasão e as deficiências de infra-estrutura que limitam o crescimento da pesquisa e, por conseqüência, da pós-graduação. Essas questões merecerão toda a nossa atenção.

Apesar da sua pouca idade, a presença da UFABC já encontra repercussão significativa no mundo acadêmico brasileiro. É preciso, porém, ampliar a nossa presença junto à sociedade, especialmente junto aos setores com maior potencial de sinergia com a nossa proposta pedagógica. Cito em particular o ensino médio, que muito poderia se beneficiar da abordagem interdisciplinar, e cujas dificuldades repercutem hoje na Universidade como um dos principais gargalos do seu desempenho. Cito também a parceria com o setor empresarial em busca de soluções inovadoras, seja para o mercado ou para o setor público. Em todas essas áreas precisamos avançar através de ações extensionistas e mecanismos adequados de estímulo e indução.

Nas discussões sobre metas para o novo Plano Nacional de Educação que o Congresso deverá aprovar para o decênio 2011-2020, fala-se em aumentar o percentual de jovens entre 18 e 24 anos matriculados na educação superior brasileira dos atuais 15% para 30%, ou até 40%, tendo em vista as necessidades de uma economia cada vez mais complexa. Na década 2001-2010 que estamos concluindo, esse percentual cresceu de 9% a 15%, impulsionado principalmente pelo setor privado, cujo fôlego porém dá nítidos sinais de exaustão nesse momento. O percentual de matrículas de educação superior nas instituições públicas, que era de 40% em 1995, caiu para 25% em 2007 e ensaia uma tímida recuperação a partir de 2008. Seria bom que ele voltasse para os 40% de outrora, não só para garantir melhores condições de acesso aos alunos de menor poder aquisitivo, como também para garantir a oferta adequada de cursos de importância estratégica para o País, mesmo que seu custeio seja mais alto que a média, como é o caso dos cursos tecnológicos. Esses números sugerem que as instituições públicas de ensino superior deverão pelo menos triplicar suas matrículas na próxima década. O que coloca a Universidade pública brasileira no limiar de um novo porvir, de um vir a ser cujos contornos já podemos vislumbrar na UFABC.

Imagino que na vida das pessoas e instituições haja um momento, entre a infância e a adolescência, que talvez seja único, no qual realmente podemos decidir o que queremos ser. Antes dele é muito cedo, pois ainda não sabemos quem somos. Depois dele é muito tarde, pois já somos o que somos. A Universidade pública brasileira parece estar num momento como esse, único, onde ainda é possível sonhar com conseqüência. Façamos da UFABC um protagonista desse sonho.

Muito Obrigado.

Helio Waldman
Reitor da UFABC
Santo André

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