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BLOCO L

Paulo Faccio Neto

O Bloco L, edifício dedicado a abrigar a maior parte dos laboratórios de pesquisa da UFABC, foi uma oportunidade para a Faccio Arquitetura de materializar algumas ideias, conceitos arquitetônicos e tecnologias já disponíveis no Brasil, embora ainda pouco utilizadas.

O edifício, não previsto no projeto vencedor do Concurso Nacional de Arquitetura para o projeto do Campus Santo André, ocupa área estabelecida no Plano Diretor do Campus no mesmo local que foi definido para a implantação da Praça do Sol.

A implantação do Bloco L, além de permanecer com esta área verde, pois a edificação foi erigida sobre pilotis, amplia a área da praça prevista no nível da Rua Abolição, através da adição de um pavimento no nível do Restaurante Universitário, que é tratado arquitetonicamente como um embasamento, sobre o qual se desenvolve um promontório, onde se localiza a praça, agora parcialmente coberta pela projeção do edifício, criando áreas sombreadas com bancos, que convidam à permanência.

Resolvida a implantação do edifício, restava estabelecer a sua comunicação com os demais prédios do Campus e o espaço público externo a este.

Para a relação com o espaço público externo, o edifício é amigável, pois a utilização de pilotis em toda a extensão do plano da praça, em nível com a Rua Abolição, ou com pequenos desníveis resolvidos com rampas, permite a livre circulação dos pedestres que acessam o Campus, simplesmente o cruzam, ou utilizam a praça de uso público.

Para a comunicação com os demais edifícios do Campus, um dos braços do "L" que configura a planta da torre, avança em relação ao promontório com a utilização de pilotis em escala monumental (12 metros) criando o segundo acesso ao edifício, desta vez ao nível da Praça do Restaurante Universitário. Neste nível um pequeno passeio protegido (como as antigas logias italianas) abrigam a lanchonete, banco, papelaria e etc.

A ligação entre os dois planos com 5 metros de desnível dá-se por uma ampla escada e por elevador de uso público.

O edifício possui estrutura pré-fabricada e protendida de concreto, exceto a torre de circulação vertical/sanitários. Todo o fechamento externo é em painéis pré-fabricados de concreto com dois tipos de acabamento externo: concreto com agregado exposto e aparente liso.

O edifício, a exemplo dos projetos do mestre João Filgueiras Lima, o Lelé, previu desde a sua concepção, shafts horizontais e verticais, níveis separados para instalações junto ao teto dos andares, grandes espaços na cobertura e no pavimento inferior para abrigar grande quantidade de instalações prediais e equipamentos técnicos, necessários ao funcionamento de um edifício para uso exclusivo de 82 laboratórios.

Os espaços previstos para estes laboratórios são também flexíveis, permitindo o aumento ou diminuição destes, sem dificultar a ampliação, diminuição ou remanejamento das instalações existentes nestes espaços.

Apesar de tratar-se de edificação para abrigar espaços eminentemente técnicos (laboratórios de pesquisa), este fato não reduziu ou prejudicou a escolha de um partido arquitetônico contemporâneo, que perpassa as conquistas da arquitetura do Movimento Moderno, mas também não aceita este como uma ruptura com o passado, mas uma continuidade, como sempre foi feito com a melhor arquitetura deste Movimento.

O projeto recebeu influências de ícones do Movimento Moderno, como o seu maior símbolo no Brasil, o prédio do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro juntamente à norma clássica de base fuste e capitel na torre ou de tratamento bioclimático nas fachadas, através do uso de painéis de concreto perfurado e recuo da caixilharia criando um espaço intermediário entre a área externa e interna (conforme preconizava o mestre Louis Kahn), filtrando a luz tropical e atenuando a incidência solar.

Há também a utilização de um elemento que facilita a rápida localização do usuário dentro da torre, que é o vazio central, que como nos edifícios de concepção clássica, sempre hierarquizava as circulações, pátios internos ou claustros, possibilitando ao usuário a clara leitura do edifício e fácil localização estando dentro deste.

Este vazio possui uma característica diversa e intermediária entre o claustro descoberto e o atrium fechado com iluminação zenital. Ele possui, de fato, características das duas situações citadas acima, pois embora coberto, não é totalmente fechado, permitindo a circulação do ar, além de vista externa através de uma “fresta” vertical entre os dois braços do “L”.

Enfim a realização deste edifício da forma como foi possível fazê-lo, representa um antigo desejo pessoal iniciado na UnB (Universidade de Brasília), escola onde estudei no período de 1973 a 1978, num edifício inteiramente pré-fabricado possuindo vigas protendidas de 28 metros na cobertura, projetado pelo Oscar Niemeyer e detalhado pelo Lelé. Observando as obras industrializadas que estavam sendo realizadas em Brasília na década de 1970, pelo Lelé, representavam um futuro possível para a industrialização no Brasil.

O Brasil possui um déficit muito grande de infraestrutura em diversas áreas da construção civil principalmente na habitação seguida de educação, saúde, etc. O que só por este fato justificaria a aceleração do processo de industrialização da construção, pela velocidade e racionalização deste sistema construtivo.

A fabricação de componentes em unidades de produção oferece o controle tecnológico e de qualidade adequado à execução destes elementos e oferece aos trabalhadores uma condição de trabalho superior à existente nos canteiros de obras.

A obra passa a ser apenas um local de montagem de elementos produzidos na indústria da construção. Porém, a perversa realidade social brasileira que produz grande quantidade de mão de obra desqualificada e mal remunerada, impede o desenvolvimento desta indústria, tornando ainda as construções artesanais com custo final inferior às produzidas com processo industrializado.

Com a vinda para São Paulo não foi viável colocar em prática este desejo cultivado em Brasília. A industrialização para os prédios ”não industriais” em São Paulo era incipiente e não havia exemplos significativos por aqui, naquela época, de construções desta natureza para outros usos. Fomos obrigados a retomar o artesanato dominante e só nos foi possível colocar em prática soluções de pré-fabricação, nos últimos anos em um edifício projetado para os Correios e outro para o SENAI, antes do Bloco “L”, mas isto é outra história.
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