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Entrevista com o reitor na "Livre Mercado"

Publicado: Quarta, 16 de Abril de 2008, 15h33

A revista Livre Mercado traz na edição de outubro uma entrevista com o reitor da UFABC, professor Hermano Tavares. As perguntas e respostas foram feitas por escrito e tratam de temas relacionados com o vestibular da Universidade, com o papel e o processo de desenvolvimento da UFABC, entre outros assuntos.

LivreMercado -- Editorial do jornal "O Estado de S. Paulo" contestou à instalação da Universidade Federal do Grande ABC relacionando-a à cronologia eleitoral, entre outras razões, porque nem dispõe de instalações para atender à demanda. A UFABC é mesmo compensação política de um governo federal de origem regional?

Hermano Tavares - Primeiro quanto ao calendário: o Ministério da Educação (MEC) começou a discutir a idéia da criação de uma universidade federal na região do Grande ABC em 2003. Essa idéia se transformou em um Projeto de Lei encaminhado pelo Executivo ao Legislativo em meados de 2004. O Congresso levou tempo apreciando o projeto, mas, num gesto de grandeza suprapartidária, aprovou-o por unanimidade em meados de 2005.

Desde então, ao longo de seis meses, sob a liderança do Prof. Luiz Bevilacqua, Vice-Reitor da UFABC, um grupo de 30 renomados pesquisadores de diversas universidades brasileiras discutiu a concepção desta universidade. Tive a oportunidade e o prazer, já como Reitor, de participar das últimas dessas reuniões que ocorreram no final de 2005. Todas as inovações que fazem parte do projeto pedagógico da UFABC foram resultados do esforço desse grupo. O calendário trimestral é uma dessas inovações e o início das aulas em setembro de 2006 uma simples decorrência dela. Onde está o açodamento? E quanto às instalações.

Veja o absurdo. Temos professores dispostos a ensinar - aliás, excelentes professores, todos eles com doutorado completo, fato inédito no ensino superior federal. E temos 1.500 alunos, que também nos parecem de muito boa qualidade, dispostos a aprender. É claro que devemos iniciar as aulas. A pior decisão possível, a mais tola, sob qualquer aspecto, posto que ineficiente, seria não fazê-lo, deixando todos parados à espera da construção de um prédio. Outra coisa que precisa ser esclarecida: a decisão de receber os alunos em grupos de 500 foi tomada muitos meses atrás, no início de 2006, e a sua razão decorre de vários fatores. O principal deles foi querermos que os alunos matriculados no 3º ano do Ensino Médio tivessem o direito de prestar o nosso vestibular. Como eles só poderiam iniciar as aulas em 2007 com o Ensino Médio concluído, concebemos a solução das múltiplas entradas. Foi como conseqüência dessa decisão, e não como sua causa, que nós nos satisfizemos com as instalações atuais, que comportam apenas 500 alunos.

À época em que estudávamos a questão, sabíamos que era perfeitamente possível dispor de instalações para iniciar as aulas para os 1.500 alunos em setembro, se assim o desejássemos. Essa nunca foi uma restrição. E o fato das instalações serem provisórias não é nenhum demérito. Eu já tive oportunidade de dizer e repito: foram em instalações provisórias que instituições como o ITA e a Unicamp iniciaram as suas atividades. O editorial do Estado de São Paulo não nos perguntou nada disso. Pelo contrário: se ateve a detalhes estranhos, para não dizer ridículos, como a questão do logotipo da universidade, algo com que ninguém da UFABC se preocupou até aqui e que até agora eu não entendi, divulgou informações erradas e não discutiu o essencial. Eu protestei por escrito em resposta que os editores do jornal tiveram a dignidade e a correção de publicar.

O problema é que o Estado de São Paulo demonstrava envolvimento em uma campanha eleitoral contra a candidatura do Presidente Lula e divergências dessa natureza freqüentemente levam à miopia. Faltou ao Estado de São Paulo a grandeza, que teve o Congresso, de perceber que a UFABC, a exemplo do grupo de intelectuais que a concebeu, é estatutariamente apolítica e apartidária, e a sua implantação não é uma realização de governo, nem de partido, mas um projeto de Estado.

LivreMercado -- O noticiário e artigos de representantes da UFABC realçam a instituição em vários planos, inclusive relacionados ao desempenho entre escolas públicas e privadas no quadro de candidatos que obtiveram vagas. Por que não se fala de avanços institucionais no campo que mais interessa ao Grande ABC, que é o da inserção entre a universidade e o mercado? A UFABC estaria encontrando dificuldades para iniciar esse relacionamento com as forças produtivas da região?

Hermano Tavares - Vou começar pela segunda pergunta. É com prazer que registro que como Reitor da UFABC eu fui extremamente bem recebido em todas as visitas que fiz na região. Todos os prefeitos, todas as universidades, como o IMES, FEI, Fundação Santo André, Mauá, UniA e UniABC, SENAI, imprensa, sindicatos, Consórcio Intermunicipal e Agência de Desenvolvimento, Pólo Petroquímico, enfim, todos me receberam de maneira calorosa, sem exceções. Então, não vejo nenhuma dificuldade de relacionamento.

Agora, eu me permito discordar quando você diz que "o que mais interessa ao Grande ABC é a inserção entre a universidade e o mercado". Ao longo dos meus 46 anos de vida acadêmica eu tive a oportunidade de apreciar de perto o resultado da implantação de diversas universidades, como o ITA, a Unicamp, a Universidade Federal da Paraíba e o Curso de Engenharia Elétrica da USP de São Carlos. Nos últimos três casos, tive participação ativa nas implantações e vivi o impacto de cada uma delas. Esse impacto não é sempre imediato, pode levar um tempo. O ITA, por exemplo, data de 1950, mas foi só no final da década de 60 que foi criada a Embraer que, hoje, mais do que ser de importância fundamental para a economia de São José dos Campos e região, se transformou numa identidade daquela cidade. Transformação semelhante em magnitude, mas distinta em natureza, deu-se na cidade de Campinas que, no final dos anos 60, quando foi criada a Unicamp, não tinha nenhuma característica do pólo tecnológico nas áreas de informática e comunicações no qual a cidade se transformaria já no início dos anos 80.

O fato é que em todos os casos o impacto da chegada da universidade na região foi sempre maior do que se poderia supor e muito além da inserção com o mercado local existente no instante de implantação da universidade. De fato, como nos casos ilustrados acima, a chegada dessas universidades mudou completamente, e sempre para melhor, o perfil desse mercado. Creio que aqui no ABC essa história se repetirá.

LivreMercado -- O senhor faz parte do coro de propagadores de que não há diferença, ou a diferença é rarefeita, entre a qualidade do ensino privado e do ensino público que teria se consolidado no quadro de notas médias obtidas pelos novos alunos, como sub-produto das cotas aplicadas? O senhor pode explicar como se chegou às notas médias dos estudantes do ensino privado e do ensino público de forma a que se desse essa interpretação?

Hermano Tavares - Na primeira fase de seu vestibular a UFABC teve 12.508 inscritos. Deles, 9.077 eram egressos das escolas públicas, os ditos cotistas. Calculamos a média desse primeiro grupo nessa primeira fase e verificamos que ela foi igual a 41,9 pontos em 100 possíveis. Os demais candidatos formaram um segundo grupo composto pelos 3.431 egressos das escolas privadas e ditos não cotistas. Nessa mesma fase, a média deles foi igual a 52,8. A diferença das médias foi de 10,9 pontos que equivalem a 26% da nota menor. Essa diferença não pode ser considerada irrelevante sob nenhuma ótica!

Ocorre que a UFABC exigiu um rendimento mínimo de 50% na primeira fase de seu vestibular, um filtro bastante rigoroso que raramente é praticado por qualquer outra universidade brasileira, seja ela pública ou privada. Veja a conseqüência disso: para a segunda fase do vestibular, dos 9.077 cotistas inscritos, foram aprovados 2.431, ou apenas 27%. Já entre os não cotistas, dos 3.431 inscritos, 1.972 foram aprovados, ou mais de 57%. A diferença é notável! Outra forma de compreendê-la é a seguinte: na primeira fase nós tínhamos, entre os inscritos, 2,6 cotistas para cada não cotista. Na segunda fase essa relação caiu a 1,2 para um, ou menos da metade. Portanto, o filtro de rendimento mínimo de 50% exigido na primeira fase fez com que passassem para a segunda fase candidatos com um perfil mais homogêneo, o que resultou em notas da segunda fase bem menos diferentes do que o que se observou na primeira.

LivreMercado -- Em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo", a pesquisadora Elisabeth Balbachevski, do Núcleo de Pesquisas sobre o Ensino Superior da USP (Universidade de São Paulo), ao ser questionada sobre a suposta semelhança de rendimento escolar de instituições privadas e públicas em várias universidades, não só na UFABC, indagou por que então aplicar as cotas? O senhor poderia responder?

Hermano Tavares - Presumo que a referida pesquisadora não tenha recebido informações completas a respeito dos resultados do vestibular da UFABC. Se tudo o que ela soube foi o resultado final, não surpreende que ela tenha feito essa pergunta, que até faria sentido. Mas, conforme foi visto na resposta anterior, a partir da análise dos resultados da primeira fase, a diferença de rendimento dos cotistas e dos não cotistas não foi pequena.

Nosso entendimento, de fato, é outro. Como já foi dito, na primeira fase do vestibular da UFABC tínhamos 2,6 candidatos egressos de escolas públicas para cada candidato egresso de escolas privadas. No vestibular de 2006 da Unicamp essa proporção foi igual a 0,56 e no da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) foi igual a 0,45. Ou seja, números cerca de cinco vezes menores do que o observado na UFABC. Veja a diferença! Então, o que acreditamos é que o anúncio de que praticaríamos a política de cotas reservando 50% das vagas para os egressos do ensino público estimulou muito a inscrição desse perfil de candidato. E foi o número grande desses candidatos que provocou a menor diferença entre as médias dos aprovados cotistas e não cotistas. Que, aliás, nem foi tão pequena assim. Os cotistas tiveram média 61,1 em 100 e os não cotistas, 67,1. A diferença de exatos 6 pontos corresponde a quase 10% da menor média.

Os números que chamaram mais a atenção pela semelhança foram outros. Comparamos a média final dos 1.500 aprovados, que foi igual a 64,1, contra a média dos 1.500 que teriam sido aprovados se o sistema de cotas não houvesse sido empregado. Nessa segunda hipótese, a média teria sido igual a 64,4, uma diferença de apenas 0,3 pontos que correspondem a menos de 0,5% da média menor. Não é difícil de compreender essa semelhança.

A adoção do sistema de cotas fez com que fossem aprovados 158 alunos egressos de escolas públicas que não teriam logrado esse êxito se esse sistema não fosse empregado. Isso significa, naturalmente, que 1.342, ou seja, 90% dos 1.500 teriam sido aprovados com ou sem a reserva de vagas. Quando calculamos as médias nesses dois cenários, a predominância das notas comuns desses 90% torna os resultados de cotistas e não cotistas muito semelhantes.

LivreMercado -- Desconfia-se que a Universidade Federal do Grande ABC será de fato Universidade Federal no Grande ABC. A diferença entre "do" e "no" está na ocupação dos principais postos diretivos por profissionais de educação sem conhecimento da realidade econômica, cultural e social do Grande ABC. O senhor seria o exemplo maior dessa interpretação de enviesamento. É substanciosa essa avaliação de oponentes à configuração diretiva e também ao quadro de professores ou conhecimento não tem limites geográficos e aspectos como os mencionados acabam superados?

Hermano Tavares - Antes de tudo devo esclarecer que atuo junto ao Ministério da Educação desde 1979. Repetidas vezes vi colocada em pauta a discussão sobre o aumento da oferta de vagas do ensino superior federal no Estado de São Paulo. Quase sempre eram brandidos argumentos afirmando que São Paulo era rico, poderoso e que tal esforço ficaria mais bem justificado em um estado menos favorecido. Ora, o Estado de São Paulo tem 23% da população e contribui com 34% do PIB nacional; não obstante, até recentemente apenas 1,2% das vagas de universidades federais eram oferecidas em São Paulo.

No que se refere a vagas universitárias públicas, eram notórios os claros no estado. Assim, foi com muita satisfação que recebi o honroso convite para dirigir a UFABC em sua implantação. E eu teria aceitado esse convite fora esta universidade localizada aqui ou em qualquer outro ponto carente do Estado de São Paulo. Agora, confesso que encontro certa dificuldade em compreender a pergunta que me foi formulada, talvez porque não consiga estabelecer um paralelo a partir dela. Não creio que o dilema existencial do "do" contra o "no" ocorra em outras cidades que contam com universidades públicas bem estabelecidas e nem naquelas em que essas instituições estão se estabelecendo, como Santos, Sorocaba, Guarulhos, Osasco ou Diadema, para ficar só no estado de São Paulo. O que eu noto é justamente o contrário, ou seja, satisfação em cada um desses lugares associada à instalação dessas instituições.

Também fico confuso com a referência à origem dos professores. A UFABC convidou 72 dos mais renomados pesquisadores brasileiros para compor as 24 bancas dos concursos públicos a partir dos quais os nossos primeiros 95 professores foram contratados. Os editais desses concursos foram amplamente divulgados no Brasil todo - aliás, houve divulgação e inscrições inclusive fora do Brasil - e foi como conseqüência disso que tivemos 677 inscrições para esses concursos. Repare que a proporção candidato por vaga nos nossos concursos para docentes, de 7,1 para 1, não ficou muito abaixo da proporção candidato por vaga do nosso vestibular, que foi de 8,3 para 1. Nossos 72 convidados fizeram um trabalho espetacular e a UFABC está muito orgulhosa do nível de seus primeiros professores, que compõem um corpo docente que já começa a ser bastante elogiado por colegas de instituições bem estabelecidas há muitos anos.

Penso que esse entusiasmo não devesse ser apenas nosso, já que o Grande ABC está recebendo, de imediato, quase 100 jovens cidadãos - a idade média é de 36 anos - que já chegam com uma formação acadêmica sólida e um enorme talento. Compare o impacto disso com o que teríamos conseguido se restringíssemos nossa busca apenas na região e você compreenderá a minha dificuldade em entender a natureza da sua questão.

LivreMercado -- O senhor concorda com a defesa desta publicação quanto à emergência de se investir em propostas que fortaleçam os setores automotivo e químico/petroquímico, que carregam nas costas o emprego e a geração de riqueza do Grande ABC, bem como buscar novas alternativas de produção com sustentação tecnológica, e que, nesse contexto, o papel da UFABC é mais que indescartável, é a própria razão da existência da instituição?

Hermano Tavares - Esses assuntos estão na nossa agenda, mas não a esgotam. O nosso Estatuto registra que "as finalidades essenciais da UFABC são o ensino, a pesquisa e a extensão, integrados na formação de cidadãos qualificados para o exercício profissional e empenhados na busca de soluções democráticas para os problemas nacionais". A busca e a valorização do talento científico, da inovação e do empreendedorismo são os nossos maiores compromissos.

A UFABC chega não apenas para atuar na dinâmica regional histórica e presente, mas disposta a mudá-la drasticamente. E é bom que seja assim, já que o contrário careceria de sentido. Se a Unicamp tivesse se limitado a atuar nos focos da economia regional de Campinas no momento em que se instalou naquela cidade, talvez até hoje ela estivesse discutindo as culturas do café e do algodão. A Unicamp foi muito além disso. No início dos anos 70 ela estabeleceu uma parceria com a Telebrás, que ficava em Brasília, e que tinha um pequeno escritório de desenvolvimento tecnológico chamado DPqD (Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento). Como resultado dessa parceria, em 1979 foi fundado em Campinas o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás) que teve um papel fundamental na transformação de Campinas no pólo de desenvolvimento em informática e telecomunicações que hoje caracteriza a cidade.

O mundo agora pode ser outro, mas a transformação que ele sofreu só fez aumentar a demanda por desenvolvimento científico e tecnológico. Nesse contexto, repito, o papel da UFABC pode e deve ir além da simples intervenção positiva na realidade mercadológica existente nestes meados da primeira década do século XXI. Gostamos de pensar que já no final da próxima década a UFABC poderá ter ajudado esta região a se transformar em um pólo de desenvolvimento e talvez numa líder nacional e internacional em áreas como nanotecnologia e bioengenharia, para citar apenas dois possíveis exemplos.

Livre Mercado -- Qual o peso relativo do braço de expansão da UFABC nas deliberações estratégicas da instituição, sabendo-se que, salvo engano, o pró-reitor da área, Jeroen Klink, ex-secretário de ponta do governo Celso Daniel, é um dos poucos especialistas em economia do Grande ABC? Terá o senhor Jeroen Klink voz ativa na definição dos programas educacionais e estratégicos da instituição?

Hermano Tavares - Seria absurdo escolher alguém para ocupar um dos cinco postos de direção mais importantes da instituição e não dar a ele voz ativa em todos os assuntos estratégicos. Portanto, sim, é claro que o Prof. Klink sempre será ouvido. Aliás, todos os pró-reitores são formuladores de estratégias institucionais. Mas a sua escolha para compor a equipe pró-tempore da UFABC decorre mais da sua formação acadêmica, reconhecida competência profissional e bom relacionamento em todos os níveis, na região, do que como conseqüência de sua especialidade na economia regional do Grande ABC.

LivreMercardo -- Apenas 36% dos estudantes que iniciaram cursos na UFABC moram no Grande ABC. Se houve preocupação com cotas que beneficiam alunos de escolas públicas e subcotas para negros, pardos e índios, seria estultice sugerir cota geográfica, para que eventuais planos de conexão entre a universidade e empresas locais não sofresse tamanha restrição? Como abdicar da possibilidade de uma universidade voltar sua linha educacional e de pesquisas à necessária reorganização de uma região que foi estraçalhada pela abertura econômica nos anos 1990 e que ainda não conseguiu se reencontrar?

Hermano Tavares - Some aos moradores do Grande ABC os moradores da cidade de São Paulo e teremos 66% dos aprovados. Os demais 34% vêm, em sua maioria, de outras cidades da Grande São Paulo, como Guarulhos, Osasco e outras, menores e mais próximas. São poucos os que vêm de mais longe, mas eles são muito bem-vindos, pois eles trazem variações culturais, o que é visto como uma riqueza acadêmica, além de ser coerente com um dos valores institucionais da UFABC, decorrente do nosso projeto pedagógico inovador, que é a mobilidade acadêmica.

Eu me formei em Engenharia no ITA, que fica em São José dos Campos. Aliás, dois dos cinco pró-Reitores da UFABC e dois dos três Diretores de Centro também estudaram lá. Um deles é também professor daquela instituição. Não é errado dizer, portanto, que a UFABC nasce sob uma forte influência do ITA. E no ITA, tradicionalmente, mais da metade dos aprovados no vestibular são egressos de outros estados que não São Paulo. Os aprovados da própria cidade de São José dos Campos ou região costumam ser muito poucos. E o resultado é ótimo. Não creio que alguém tenha alguma dúvida da importância do ITA para a cidade de São José dos Campos e para o Estado de São Paulo.

LivreMercado -- Não estaríamos com esse suposto novo modelo de universidade que -- para esta publicação, subestima a realidade regional -- repetindo antigos erros e alimentando a reprodução de estatísticas que apontam que dos 3,5 milhões de profissionais formados em 21 diferentes áreas no País, 53% atuam em profissões distintas daquela para a qual se prepararam, conforme revelou outro dia a "Folha de S. Paulo"? Há casos em que supera a 70% a incidência de profissionais deslocados das profissões em que investiram.

Hermano Tavares - Esta oportuna reportagem da Folha de São Paulo traz dados novos a um velho problema. Eu poderia enriquecer estas estatísticas com outras. Sem querer citar nenhuma universidade em particular, posso lhe afirmar que o índice de evasão nos cursos de bacharelado e licenciatura nas áreas científicas em algumas das nossas universidades públicas supera 60%! O problema começa antes, na linha de partida. Há duas barreiras de ingresso na universidade brasileira: nas públicas, a disputa ferrenha do vestibular e nas privadas, a dificuldade do pagamento das mensalidades. Muitos nem conseguem ingressar na universidade e dos que conseguem não são poucos os que a abandonam, conforme o dado que já citei. Dos que a concluem, conforme indicado pela Folha de São Paulo, parte significativa não trabalha na área em que se graduou.

É claro que temos um problema. Muitos pensadores da educação brasileira vêm se debruçando sobre isso há anos. E a concepção inovadora da UFABC tenta oferecer uma solução. Ao contrário da praxe, na UFABC o aluno não será submetido a uma escolha profissional precoce, já que ele ingressa em curso comum, chamado Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BCT). Este bacharelado é interdisciplinar e foi concebido para oferecer uma visão generosa do desenvolvimento da ciência. Nele, o aluno terá uma formação composta por três módulos distintos. Há um primeiro módulo, de matérias obrigatórias, que tem uma carga de quase 20% de matérias nas áreas de humanidades. E o contexto, volto a citar o Estatuto da UFABC, é justamente o de querermos formar "cidadãos qualificados para o exercício profissional e empenhados na busca de soluções democráticas para os problemas nacionais", ou seja, "técnicos competentes e cidadãos conscientes", que era o lema do ITA proposto pelo seu idealizador, o Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho. Dois outros módulos seguem-se a este; neles o aluno exercerá sua liberdade de escolha para construir seu próprio currículo: um deles de matérias eletivas, dentro de conjuntos específicos de disciplinas e um último de matérias completamente livres.

Tal liberdade é um contraponto à rigidez costumeira dos currículos nacionais. Ao término destes três módulos, concebidos para durar três anos, o aluno conclui o BCT e recebe um diploma que é uma inovação no mercado brasileiro. Nossa aposta é a de que o mercado o perceberá como algo de valor. O fato é que nesse modelo o aluno que vencer três anos de universidade, um a menos do que os cursos de menor duração nas áreas de ciência e tecnologia, e com a possibilidade de direcionar cerca da metade do seu currículo de acordo com os seus próprios interesses, deixará a universidade portando um diploma de nível superior.

Note que o BCT amplia as possibilidades: uma especialização aguda não fica descartada. Só que agora ela ocorrerá como uma opção feita em um momento diferente da vida do aluno, não aos 16 ou 18 anos, quando ele se inscreve para o vestibular, mas mais tarde, quando, além de mais maduro, ele já tiver visto as bases de diferentes linhas científicas, repito, sempre com uma abordagem interdisciplinar, valor essencial da UFABC.

E cabe um registro adicional: estudos recentes mostram que se o progresso tecnológico ocorrido no ano 2000 for considerado 1 unidade de tempo tecnológico, o século XX completo teria tido apenas 16 unidades semelhantes. E o século XXI certamente terá mais do que 100 dessas unidades. Esta aceleração tecnológica tem que ser levada em conta na universidade moderna. A UFABC se esforçará para introjetar em seus alunos a necessidade da educação continuada, indispensável ao profissional do século XXI inclusive por questões de empregabilidade: se ilude quem imagina que o portador de um diploma, hoje, é o detentor de um conhecimento profissional suficiente.

E mais: A concepção da UFABC também inova na Pós-Graduação. Na história da educação do Brasil, até recentemente e mesmo hoje, dificilmente conseguimos formar um doutor com menos de 30 anos. Isto porque o aluno precisava concluir o bacharelado, em seguida cumprir um programa de mestrado, o que raramente levaria menos de dois anos, e só então iniciar o doutorado, que duraria outros quatro anos. Ocorre, como é sabido, que boa parte das descobertas científicas de maior impacto na história da humanidade foi produzida por jovens com menos de 30 anos. Na estrutura da UFABC o aluno poderá concluir o BCT por volta dos 21 anos e, se ao longo do seu curso tiver descoberto uma vocação científica, poderá cursar pós-graduação na própria UFABC ou alhures, particularmente na Europa, que está implantando uma concepção pedagógica na área dos cursos científicos à qual a UFABC se assemelha. Assim, talvez, daqui a seis anos estejamos entregando ao ABC, e ao Brasil, nossos primeiros doutores de menos de 25 anos de idade, coisa possível em países como os Estados Unidos.

Claro que estamos falando de poucos, mas a história mostra que são esses que modificam o mundo. E a proposta da UFABC poderá revolucionar o ensino superior brasileiro. Recentemente eu estive em um evento que discutiu a educação superior na América Latina e a possibilidade de criar a Universidade do Mercosul. Na ocasião, o Reitor da Universidade Federal da Bahia, Prof. Naomar de Almeida Filho, discorreu sobre a evolução histórica dos modelos universitários brasileiros, comentou a respeito do seu anacronismo, acentuando que os modelos atuais não mais existem nos países dos quais foram copiados e, em seguida, apresentou aos representantes dos países do Mercosul um modelo universitário novo que poderá ser seguido por essa universidade. A apresentação era, em sua essência, o mesmo modelo da UFABC.

LivreMercado -- É possível acreditar na possibilidade de a Universidade Federal do Grande ABC acoplar no organograma gerencial espécie de Conselho Consultivo integrado por representantes mais qualificados da sociedade do Grande ABC na área econômica, de modo a interagir mais proximamente com o planejamento estratégico de relacionamento universidade-mercado sem qualquer necessidade de contrapartida financeira?

O Estatuto da UFABC já prevê a representação externa em seus órgãos superiores de administração. O Conselho Universitário, por exemplo, deve incluir dois representantes da comunidade. Entre outras deliberações, compete a essa instância administrativa fixar a forma de execução da política geral da Universidade, elaborar reformas estatutárias, aprovar planos de atividades e supervisionar as atividades de extensão.

O atual Estatuto também determina que um destacado representante da sociedade civil municipal, indicado pelo Diretor Geral da Agência Regional de Desenvolvimento do ABC, fará parte do Conselho de Desenvolvimento da UFABC. Esse outro conselho é responsável pelos mecanismos de captação de recursos, pela definição e aplicação do orçamento, supervisão financeira, dos programas de auxílio ao estudante e da destinação de repasses, pela aprovação de planos de captação financeira e do Plano plurianual de Desenvolvimento Institucional e pela apresentação à sociedade dos resultados e das realizações da Universidade.

Portanto, a UFABC possui mecanismos regimentares que permitem a participação e o acompanhamento da sociedade em seus principais processos deliberativos. A criação da Universidade, da forma tão dinâmica como aconteceu, não seria possível sem o trabalho conjunto e o apoio de outras instituições, o que mostra a extrema importância da atuação integrada na realização de um projeto do porte de uma universidade federal. A experiência e o orgulho de contar com o suporte de instituições como a UFSCar, a UFMG e o Fundep, entre tantas outras, dá a dimensão da importância de se realizar um trabalho integrado e participativo.

Assessoria de Comunicação e Imprensa
UFABC

 

 

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