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Contar histórias reduz a dor e o estresse em crianças hospitalizadas

Publicado: Sexta, 28 de Mai de 2021, 12h39

Pesquisa inédita mostra que atividade aumenta a qualidade de vida de crianças internadas em UTIs com evidências robustas de impactos fisiológicos e psicológicos positivos

Contação de histórias reduz estresse, com queda nos índices de cortisol, e aumento de ocitocina em crianças hospitalizadas, revela estudo do IDOR e da UFABC, em parceria com a Associação Viva e Deixe Viver.

Um novo estudo com participação do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), em parceria com a Associação Viva e Deixe Viver (Viva), acaba de evidenciar, pela primeira vez, que o ato de contar histórias é capaz de trazer benefícios fisiológicos e emocionais para crianças que se encontram em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A descoberta foi publicada recentemente no Proceedings of the National Academy of Sciences, periódico científico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, e foi liderada pelos pesquisadores Prof. Dr. Guilherme Brockington, da UFABC, e o Prof. Dr. Jorge Moll Neto, do IDOR.

"Durante a contação de histórias acontece algo que chamamos de 'transporte da Narrativa', ou seja, a criança, por meio da fantasia, pode experimentar sensações e pensamentos que a transportam, momentaneamente, para outro mundo, outro lugar, diferente do quarto do hospital e, portanto, longe das condições aversivas de uma internação" informa o professor Guilherme Brockington, da UFABC, primeiro autor do estudo.

Voluntário com livro na mão conta história para criança internada em hospital. Criança olha atenta.

Histórias fascinam o imaginário infantil (Foto: Ana Flávia Coutinho)*

Foi considerando os processos psicológicos e biológicos que ocorrem antes, durante e depois de ouvir uma história, que os pesquisadores do estudo tiveram a ideia de buscar evidências científicas acerca dos principais benefícios das narrativas para crianças hospitalizadas em caso crítico.

Foram selecionadas, ao todo, 81 crianças, com idades entre 2 e 7 anos e que apresentavam condições clínicas similares e problemas respiratórios como asma, bronquite e pneumonia. Crianças em internação na UTI no Hospital São Luiz Jabaquara, da Rede D´Or, em São Paulo. As crianças foram divididas em dois grupos de forma aleatória: 41 delas participaram de um grupo no qual contadores de história voluntários da Associação Viva e deixe Viver liam histórias infantis durante 25 a 30 minutos, enquanto em um grupo controle, 40 crianças eram engajadas em perguntas de enigmas e adivinhações propostas pelos mesmos profissionais e durante o mesmo intervalo de tempo.

Para comparar os efeitos das duas intervenções, foram coletadas amostras de saliva de cada participante com o objetivo de analisar as oscilações de cortisol e ocitocina – substâncias relacionadas ao estresse e à empatia, respectivamente –, antes e depois de cada sessão. Além disso, as crianças também realizaram um teste subjetivo sobre o nível de dor que estavam sentindo antes e depois de experimentarem as atividades, bem como realizavam uma tarefa de associação livre de palavras ao verem 7 cartas com ilustrações de elementos do contexto hospitalar (Enfermeira, Médica, Hospital, Remédio, Doente, Dor e Livro).

Os desfechos foram positivos para os dois grupos, já que ambas intervenções reduziram o nível de cortisol e aumentaram a produção de ocitocina em todas as crianças analisadas, enquanto a sensação de dor e desconforto também foi amenizada, segundo a avaliação das próprias crianças. A única e significativa diferença é que os resultados do grupo que participou da contação de histórias foram duas vezes melhores do que o grupo das adivinhações, o que levou os pesquisadores à conclusão de que este contraste só poderia se dar em função da atividade narrativa.

Voluntário com livro conta história para criança internada em hospital. Criança está com a cabeça no ombro da voluntária e olha atenta para o livro.

Voluntária conta história para criança. Experiência é muito positiva. (Foto: Ana Flávia Coutinho)*

“Outro destaque deste estudo é que ele não foi realizado em ambiente artificial, e sim dentro do cotidiano da UTI pediátrica. A contação de histórias era feita de forma individualizada, a criança escolhia qual seria a história a ser contada. Entre os livros oferecidos, nós escolhemos títulos disponíveis em livrarias comuns e sem viés emocional pré-definido, para a história não influenciar tanto a reação da criança depois da atividade”, destaca o prof. Guilherme Brockington.

O estudo comenta que outras pesquisas já evidenciaram os efeitos das narrativas no cérebro humano. Por exemplo, apenas ao ler sobre a descrição de um som numa história, as áreas do córtex relacionadas à audição são ativadas, mesmo que não haja fonte sonora no local. Contudo, e apesar da prática já ser adotada em muitos hospitais infantis, esta é a primeira vez que são apresentadas evidências robustas de seus impactos fisiológicos e psicológicos, contribuindo para que a contação de histórias seja pensada como método terapêutico eficaz e de baixo custo, que pode fazer toda a diferença na qualidade de vida das crianças em unidades de terapia intensiva.

Os impactos emocionais da contação também foram revelados nos resultados do teste de associação livre de palavras, feito ao final de cada intervenção. As crianças do grupo que passou pela sessão de contação de histórias relataram muito mais emoções positivas do que o grupo controle, justamente para os estímulos referentes a Hospital, Enfermeira e Médica. Por exemplo, as crianças do grupo controle quando viam a carta com o desenho de um Hospital diziam: “esse é o lugar que as pessoas vão quando estão doentes”. Já as crianças do grupo contação relataram para a mesma carta: “esse é o lugar que as pessoas vão para ficarem melhor”. Para enfermeira e médica, foi observado o mesmo padrão. Crianças do grupo controle diziam “É a moça má que vem me espetar com a injeção”, enquanto as que ouviram as histórias diziam frases como: “É a moça que vem me curar”.

Apesar da pesquisa ter contado com o apoio de profissionais contadores de história da associação Viva e Deixe Viver, os autores afirmam que a contação é uma atividade que pode ser praticada de forma igualmente benéfica por pais e educadores, dando espaço para as crianças participarem da escolha e da interação com a história. Além da redução de ansiedade e estresse, a atividade possibilita estreitar laços entre a criança, o narrador e as outras pessoas presentes na prática.

Os autores do estudo chamam a atenção, também, para aplicações potenciais adicionais da contação de histórias, e seus resultados positivos, em crianças que experimentam diferentes tipos de estresse em seu meio, tal qual o observado pela pandemia de Covid-19.

“Ainda que tenhamos realizado nossa pesquisa dentro de um hospital, o ambiente da UTI pode guardar bastante similaridades com a realidade que muitas crianças podem estar vivenciando agora com a pandemia da COVID-19: o isolamento social que as mantém distantes dos amigos e pessoas queridas; os graus de stress e tensão causados por uma doença; o tédio de estar no mesmo ambiente por muito tempo; as emoções negativas como medo, tristeza e raiva que surgem em ambos os casos. Assim, a prática da contação de histórias por pais, parentes e amigos pode ser uma maneira simples e efetiva de melhorar o bem-estar da criança e é uma atividade acessível para todas as famílias”, finaliza o pesquisador Guilherme Brockington.

*Imagens fotografadas antes da pandemia de covid-19.


 Texto: Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com a Associação Viva e Deixe Viver (Viva). Adaptação: Assessoria de Comunicação e Imprensa da Universidade Federal do ABC (ACI UFABC).

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