Política nacional para o setor de petróleo e gás é tema de trabalho premiado
Estudo analisa avanços e limites da expansão de parte da estrutura energética brasileira em uma década
O esforço do Estado brasileiro para garantir a autossuficiência em petróleo e gás em uma década é o tema de pesquisa premiada pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI)-CNPq. O estudo de André Cardoso, tese de doutorado defendida em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Mundial, analisou as políticas brasileiras para superar a dependência externa na área. O trabalho rendeu a ele a vitória em uma das categorias da premiação.
Entre 2003 e 2013, medidas governamentais levaram a Petrobras a enfatizar a promoção do desenvolvimento industrial. Nesse período, o Brasil realizou grandes investimentos e procurou fortalecer a indústria nacional, estimulando a produção de equipamentos, a geração de empregos e o desenvolvimento tecnológico.
A pesquisa estima se a expansão da estrutura produtiva no setor realmente reduziu a dependência econômica das grandes corporações internacionais. Para isso, o acadêmico utilizou a matriz insumo-produto, ferramenta capaz de analisar as relações entre diferentes setores da economia e identificar como a riqueza produzida circula entre eles.
“O trabalho procura demonstrar que, embora as políticas industriais tenham produzido resultados positivos, especialmente na expansão dos investimentos e da atividade econômica, encontraram limites importantes diante da forma como a produção mundial está organizada. As grandes corporações multinacionais continuam controlando tecnologias e etapas estratégicas das cadeias produtivas, o que dificulta que países como o Brasil se apropriem de uma parcela maior da riqueza produzida”, explicou André Cardoso.
A pesquisa aponta dimensões bastante amplas sobre o capitalismo contemporâneo, as cadeias globais de produção e a dependência econômica com uma análise empírica da indústria brasileira de petróleo e gás. A estrutura complexa do setor, que envolve diferentes segmentos industriais, tecnologias e relações comerciais internacionais, demandou do pesquisador um grande esforço analítico para compreender seu funcionamento e as políticas implantadas pelo Estado brasileiro.
O cotejo de dados econômicos e a construção de indicadores por meio da matriz insumo-produto permitiram a identificação dos avanços, contradições e limites das políticas aplicadas à área de petróleo e gás.
Ao propor o debate sobre o desenvolvimento econômico brasileiro a partir de sua inserção na economia internacional e das relações de poder que caracterizam o capitalismo contemporâneo, o trabalho de Cardoso demonstrou estreita afinidade com o Programa de Pós-Graduação em Economia Política Mundial.
De acordo com o pesquisador, o estudo parte do entendimento de que os problemas do desenvolvimento industrial brasileiro não podem ser explicados apenas pelas nossas condições internas. É necessário compreender também como a economia mundial está organizada, o papel das grandes corporações multinacionais e as relações de dependência entre países centrais e periféricos.
“Nesse sentido, a Economia Política Mundial oferece uma perspectiva fundamental, ao articular as dimensões econômicas, políticas e históricas desses processos. Acredito que essa seja uma das principais contribuições do programa: formar pesquisadores capazes de analisar criticamente os grandes desafios nacionais sem perder de vista sua relação com as transformações da economia mundial”, explicou André Cardoso.
Com o sucesso da pesquisa, André Cardoso planeja antecipadamente os próximos passos. Um deles é converter o material levantado em artigo científico. Também pretende continuar os estudos sobre políticas industriais, desenvolvimento econômico e dependência, especialmente diante das transformações recentes da economia mundial.
“O setor de petróleo e gás continua sendo estratégico para o Brasil, mas hoje temos novos desafios relacionados à transição energética, às disputas tecnológicas e à reorganização das cadeias produtivas internacionais”, disse.
“Acredito que essas transformações tornam ainda mais importante discutir o papel do Estado, das empresas públicas e das políticas industriais na construção de um projeto de desenvolvimento nacional”.
Além de seguir com a produção acadêmica, ele quer contribuir para que os resultados da pesquisa sejam debatidos em outros espaços, especialmente em organizações sociais, sindicais e em conjunto com os trabalhadores. “Considero fundamental aproximar o conhecimento produzido nas universidades públicas dos debates sobre os rumos econômicos e sociais do país”, afirmou.
Superintendência de Comunicação - UFABC
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