Argélia e a Primavera Árabe Tardia: Hirak, mudança política e mobilização popular (2019-2022)
Kimberly Barandas ᵃ* , Mohammed Nadir ᵇ
ᵃ Universidade Federal do ABC (UFABC)
ᵇ Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Resumo
A pesquisa buscou captar a especificidade da primavera árabe tardia argelina, o Hirak, respondendo como a sua singularidade - em seu caráter, em seu tempo e em seus resultados - está relacionada ao passado histórico do país, a fim de prover maior visibilidade ao movimento por meio do qual um povo rompeu barreiras ao se rebelar contra injustiças e privações. A assimilação dos fatores histórico-políticos e econômico-sociais, desde a pré-independência até as transformações da contemporaneidade resultando nas revoltas em 2019, permitiu a constatação de que os fins iniciais do Hirak foram abafados e o controle vigente passa por uma estrutura estatal ainda dominada pelos militares - realidade esta que se reproduz na região.
Palavras-chave: Primavera Árabe; Argélia; Relações Internacionais.
Abstract
The research sought to capture the specificity of Algeria’s Late Arab Spring, the Hirak, by addressing how its singularity - in its character, timing, and outcomes - is connected to the country’s historical past, aiming to provide greater visibility to the movement through which the people overcame barriers by rebelling against injustice and deprivation. The assimilation of historical-political and socio-economic factors, from the pre-independence period to contemporary transformations culminating in the 2019 uprisings, made it possible to conclude that the initial objectives of the Hirak were suppressed, while the prevailing control remains
under a state structure still dominated by the military - a reality reproduced across the region.
Keywords: Arab Spring; Algeria; International Relations.
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ORCID ID:
https://orcid.org/0009-0005-5075-2467
https://orcid.org/0000-0001-9213-808X
Introdução
A pesquisa propõe-se a ser um estudo do chamado “Hirak”, movimento que se deu na Argélia a partir de 2019 e que esteve implicado em um contexto tardio do fenômeno mais amplo da Primavera Árabe - caracterizada por uma vasta onda de protestos em diversos países do MENA, isto é, a região do Oriente Médio e Norte da África. Isso porque, apesar da superação de algumas particularidades regionais ao aproximar reivindicações comuns às populações, no caso da Argélia é necessário considerar a herança histórica de domínio colonial francês, a memória de uma guerra de independência violenta e a natureza do regime governante duradouro que foi derrubado. Assim, um interesse mais aprofundado sobre o Hirak faz-se imprescindível, com objetivos que centram-se em torno da busca pelo entendimento não só de resultados imediatos mas das razões pelas quais as reivindicações conseguiram se organizar e se intensificar, rompendo com o isolamento argelino das rebeliões ao seu entorno somente a partir de 2019.
É essencial a compreensão dos fatores que direcionaram o estopim da revolta, assim como a dinâmica das mobilizações, para perceber as consequências sociais, econômicas e políticas, inclusive para interpretar como ainda há o seu enquadramento como parte da Primavera Árabe embora a combinação de legado colonial e influência militar do regime originou a experimentação de uma trajetória distinta. O Hirak questionou todo o projeto pós-colonial do Estado argelino e provocou reflexões sobre a possibilidade de uma real mudança ou a permanência de uma proposta de país dominado, apenas com a controversa troca de protagonistas.
Uma constatação é precisa: “os manifestantes quebraram as barreiras sociais, políticas e econômicas, e estavam unidos em função das privações sofridas durante anos para exigir liberdades básicas e melhores condições de vida como direitos coletivos” (Bishara, 2019). E certamente sua relevância, não somente na história argelina, mas também mundial, poderá ser encontrada por meio de todos as consequências e demonstrações de poder que um povo pode possuir ao se unir em prol de uma causa ao bem comum.
O estudo do Hirak é essencial para compreender os desafios das políticas nacionais no MENA e os impactos da resistência popular contra regimes autoritários. Portanto, a pesquisa visibiliza a reação do povo argelino diante da injustiça social. A particularidade da experiência argelina ainda carece de exames e a maior parte dos trabalhos que versam sobre o tema estão concentrados sobre fontes jornalísticas que apenas expõem os acontecimentos, sem debruçar-se sobre singularidades históricas e nacionais que devem ser levadas em conta.
A relevância advém também do fato de que a Argélia vem ascendendo no cenário global por sua posição estratégica no Mediterrâneo, tanto no âmbito da relação com a Europa, em decorrência da exportação de gás natural e petróleo cada vez mais em evidência na atualidade - por conta do recente conflito na Ucrânia -, quanto em relação à sua importância geopolítica crescente na região Norte da África. Portanto, a meta de fornecer uma apuração contextualizada do processo político argelino e suas reflexões na estabilidade regional e na política global se mantém como norteadora.

Figura 1. Mapa que demonstra a posição estratégica argelina. The Maghreb Review. Magreb para Todos / Le Maghreb pour tous. Acesso em: 5 nov. 2025. 2004. Disponível em: http://tmr.maghreb-studies-association.co.uk/wp/.
A constatação inicial demonstrou potencial de inspiração para transformações em uma região há muito abalada por questões históricas e que ganha mais notoriedade. Em perspectiva mais ampla, a pesquisa também incentiva o pensamento sobre a expectativa dos países que possuem heranças coloniais - inclusive o Brasil. O percurso sobre os efeitos imediatos e no longo prazo do Hirak, dialogando com debates sobre a Primavera Árabe e a organização de movimentações sociais em meio a intervenções externas abre o caminho para tratar dos desafios da região do MENA em conduzir transições políticas. Desse valor adveio a ideia para o trabalho, como parte dos desenvolvimentos do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos (CEAI/UFABC) e do Programa PDPD da UFABC (Pesquisando Desde o Primeiro Dia), cujos engajamentos viabilizaram o processo de pesquisa.
As ferramentas de elaboração da pesquisa
Pretendeu-se o rastreamento de obras, procedimentos e técnicas baseadas sobretudo em revisão bibliográfica. Análises da literatura política, econômica e histórica se realizaram visando a permissão de um entendimento da natureza do Estado na Argélia, Norte-África e Oriente Médio em um geral. Assim, a metodologia incluiu a leitura, com orientação de perspectivas tanto ocidentais como orientais no sentido de evitar conclusões tendenciosas, de modo também a permitir a compreensão de todo o contexto que desencadeou as revoltas iniciadas em 2019. Efetivaram-se estudos sobre artigos, livros, sites e notícias em constante atualização, uma vez que o tema mostra-se ainda muito recente. De tal forma, o monitoramento de jornais e revistas locais fez-se imprescindível, além de uma literatura de rua, como panfletos e cartazes de convocação utilizados na fase reivindicatória dos protestos.
Descobertas da pesquisa
Abdelaziz Bouteflika, presidente argelino por 20 anos, fez-se uma das principais figuras para a consolidação das dinâmicas políticas da Argélia, mas também da realidade atual e dos rumos futuros. Tal personalidade ganhou projeção ao participar da guerra de independência contra a França, que permanece como um momento sombrio ao qual os argelinos temem voltar (Genyi, 2021, p.198), e sua primeira eleição, em 1999, trouxe a expectativa de estabilidade e unificação. Essa esperança logo foi frustrada pela capacidade de resiliência do governante mesmo após o fracasso do projeto de emancipação ao qual se propunha.

Figura 2. Cronologia simplificada da história argelina. Elaboração própria dos autores (2025).
El-Naggar (2022, p. 13-15) expressa como Bouteflika foi a expressão de uma estrutura que inviabiliza a melhora, herança de um sistema pós-colonial estagnado, validado pelo Ocidente. No que tange ao agravamento desse contexto já delicado, o golpe de Estado de Bouteflika em 2013 e a queda dos preços dos hidrocarbonetos, cuja resposta do Estado centrou-se em políticas de austeridade, caracterizaram tendências de continuidade na Argélia. Parecia que as elites militares, empresariais e políticas tinham um consenso para mantê-lo como líder do país (Boduszynski 2019 apud Genyi, 2021, p. 207).
À situação econômica desastrosa, adiciona-se a negligência e a corrupção o poder argelino e a não diversificação da economia nacional (Malti, 2021, p.261). Apesar de equilibrar o poder de uma presidência civil ao mesmo tempo em que incentivou a profissionalização da instituição militar (Mortimer, 2006), a administração não alcançou respostas econômicas e democráticas de justiça social - minando a perspectiva de uma verdadeira reconciliação - e a situação tornou-se insustentável diante da expressão de um quinto mandato.
A participação política era cada vez menor e a insatisfação nas ruas começou a se desvelar diante de demandas por políticas públicas que não eram atendidas. Eram pequenas manifestações, localizadas e não violentas que clamavam para que as autoridades governamentais cumprissem suas promessas. Nesse sentido, surgem explicações ao não acompanhamento da primavera árabe argelina de uma linha cronológica dos outros países da região do MENA, se dando mais tardiamente. Até então, a gestão Bouteflika expressava permissividade em comparação à repressão percebida em outros regimes, além do que havia ausência de uma oposição forte e consolidada (Tamlali, 2014).
Onde havia confiança de virada era entre os jovens, marginalizados diante da preservação do poderio das antigas oligarquias e, pois, não viam estabilidade na figura de Bouteflika, o que contribuiu para que as revoltas descentralizadas pudessem se organizar em torno de um movimento concreto. Dessa vez, não apenas reivindicações por justiça social ou autonomia nacional fizeram-se presentes na crise institucional: a ampla campanha nas redes sociais levou milhões de pessoas às ruas.

Figura 3. Protestos do Hirak em Argel, Argélia. North Africa Post. 27 fev 2021. Algeria’s political protests poised to grow as the economic crisis bites. Disponível em: https://northafricapost.com/47937-algerias-political-protests-poised-to-grow-as-economic-crisis-bites.html
O destino argelino, que antes parecia selado apenas pela satisfação dos interesses externos e de corrompidos administradores ganhou nova perspectiva e os entraves ao desenvolvimento passaram a ser enxergados como nacionais, canalizados em torno de um prol comum: exigir práticas transparentes e democráticas, a gestão ponderada do orçamento estatal e uma nova política. Em 2 de abril Bouteflika renunciou (Genyi, 2021, p.210-211).
Um novo presidente foi eleito antes do final de 2019, mas a crise política perdurou. Diante da não interrupção dos protestos, ainda que a questão eleitoral aparentava estar solucionada, a verificação de que as condições da mudança significativa na Argélia requereriam maior profundidade se tornava real. No entanto, para acontecer a real mudança, todas as figuras representativas do regime político do Estado e do establishment deveriam ser retiradas, não apenas o presidente.
Para o azar do sonho argelino, o Hirak enfrentou contraposições às quais não obteve êxito em resistir. A pandemia e as limitações da oposição em torno de organizações e concordâncias contribuíram para o esvaziamento das exigências do Hirak. Mas o que de fato minou tal processo foi a brecha deixada ao regime, que se reorganizou em estratégias ofensivas que reprimiram calculadamente e esgotaram a coragem dos manifestantes pela mudança. As forças armadas, o verdadeiro poder do establishment na Argélia, optaram por não reprimir brutalmente a revolta, abandonando o apoio a Bouteflika e fortalecendo a visão de que estariam do lado dos manifestantes pacíficos - em uma clara tentativa de domar os protestos já explosivos a seu favor. O regime argelino conseguiu desarmar o Hirak através de uma combinação de repressão seletiva, reformas e eleições cuidadosamente organizadas (Ghebouli, 2022).
Na segunda metade de 2019, houve o bloqueio dos meios de comunicação coordenadores, fechamento de locais de concentração popular e o desaparecimento dos fomentadores do processo. O poder estabelecido tirou vantagem também do temor do povo argelino de qualquer conjuntura que abale a estabilidade político-social e da dificuldade do Hirak em persuadir uma unidade geral e direcionar os esforços ao boicote às eleições. A emergência sanitária da COVID-19, em 2020, que obrigou o isolamento social em todo o mundo, foi a gota d’água ao impedir o contínuo das manifestações nas ruas. Dessa forma, o Hirak sofreu um desmonte e um novo presidente, Abdelmadjid Tebboune (representante civil mas de escolha militar), ascendeu ao poder. “Mais uma vez a elite dominante forçou o seu plano de mudança através da continuidade” (Guebouli, 2022).
É sabido que qualquer ameaça à solidez no Oriente Médio provoca uma rápida reação das potências ocidentais, respeitando sua postura já de longa data de interferência direta no destino dos países envolvidos que ainda são vistos como passíveis de subjugação a seus interesses. Porém, no caso da Primavera Árabe argelina tal resposta foi cautelosa. Os fatores que explicam tal evento se relacionam à posição geográfica e política essencial da Argélia no que diz respeito a sua proximidade física com a Europa, o comércio indispensável de hidrocarbonetos (ainda mais com a recente Guerra na Ucrânia) e o zelo no combate ao terrorismo. Inclusive, a falta de interferência externa explícita no Hirak é mais um dos pontos que o distingue dos outros modelos de Primavera Árabe na região do MENA.
Conclusões finais - o que vem daqui para frente?
Mesmo que tenha se mostrado incapaz de garantir uma transição de poder efetiva, a revolta organizou informações valiosas, esclarecendo ao povo argelino que o todo o establishment político precisa ser derrubado para sanar as dificuldades e democratizar o país. Além disso, o ocorrido em 2019 foi o primeiro levante que chegou perto de demonstrar uma unidade nacional, envolvendo segmentos convencidos de que a carência vivenciada chegara a um ponto pior do que a organização de uma insurreição. O sonho argelino pode não ter obtido vitória, mas configurou uma experiência elucidante.
Configurou-se um erro não propor a revisão sistêmica na política argelina e no próprio Hirak, que, somado às falhas da oposição, representariam também um entrave ao seu sucesso. “Quando as pessoas começaram a sentir que estavam apanhadas no meio de uma batalha pela influência entre a elite dominante, recuaram, preferindo a segurança do status quo” (Guebouli, 2022). Não é uma nova Argélia, não há solidez democrática, apenas é mais um exemplo de Estado na região do MENA em que o militarismo continua a dominar as estruturas estatais. Os erros do Hirak devem ser identificados para que em um futuro promissor a mudança possa acontecer em momento oportuno e melhor arranjo. Um dos maiores triunfos, a reunião de uma nova geração de ativistas, será de imenso usufruto para solicitações ao governo em sua tarefa de lidar com um novo contexto político e para consolidar uma alternativa poderosa a estrutura político-militar tão nociva à Argélia e à região.
O fracasso do Hirak na Argélia, apesar de suas particularidades, pode ser considerado um reflexo do que aconteceu nos outros países da região do MENA contemplados pela primavera árabe. A análise do Hirak permite, assim, a avaliação também do processo do sonho democrático em todo o Oriente Médio e da viabilidade real de derrubada das oligarquias, das monarquias, dos militares e do establishment. A conjuntura internacional é menos favorável agora, dado que mesmo a pressão do Ocidente por abertura - quando lhe é conveniente - foi posta em segundo plano pelas preocupações surgidas com a Guerra na Ucrânia, em 2022, que fortaleceu as autocracias dos países que têm recursos petrolíferos e de gás natural.
Diante da longevidade e da resiliência do regime da Argélia em se restabelecer após tamanhas turbulências, tanto em 2011, evitando a onda de protestos da Primavera Árabe nos países vizinhos, quanto em 2019 com a sua própria primavera árabe tardia, é complexa a elaboração de perspectivas futuras positivas. Além de a máquina repressora do regime estar preparada para enfrentar ameaças, agora tomadas muito a sério, a ascensão da reputação argelina como potência regional direciona a atenção internacional à contenção de qualquer instabilidade no país que pudesse impactar o comércio global ou a segurança europeia.
Contudo, isso não será suficiente para amparar o governo caso as adversidades internas não forem resolvidas. “O Hirak pode ter desaparecido do radar público desde Maio de 2021, mas continua a ser um projeto de importância política, econômica, nacional e cultural” (El-Naggar, 2022, p.5-6). Eventualmente os apelos pela democracia e pelos direitos humanos ressurgirão, impulsionadas pelo legado do Hirak, fracassado mas que deixa marcas permanentes na sociedade argelina. A melhor estruturação de um novo movimento inspirado no Hirak, com líderes fortes, a evolução das táticas de reunião para discussões e a habilidade de persuasão do povo argelino podem significar o renascimento do projeto de emancipação na Argélia.
Referências bibliográficas
- El-Naggar L. Algeria’s Hirak movement: a second national liberation? (2022).
- Genyi GA. A chegada da primavera árabe na Argélia e no Sudão: paralelos comparativos e intuitivos. Rev. Bras. Estud. Afr. 6, 12 (2021). Disponível em: https://www.seer.ufrgs.br/index.php/rbea/article/view/110674 (Acesso em 18 Jan 2023).
- Guebouli ZL. Algeria’s opposition after the Hirak: limitations and divisions. Middle East Institute (2022). Disponível em: https://www.mei.edu/publications/algerias-opposition-after-hirak-limitations-and-divisions
- Malti H. Chroniques des années Bouteflika (1999–2010). (2021). Mortimer R. Bouteflika and Algeria’s path from revolt to reconciliation. Curr. Hist. 99, 10 (2000).
- Schiocchet L. Extremo Oriente Médio, admirável mundo novo: a construção do Oriente Médio e a Primavera Árabe.(2011).
- Tamlali Y. Algeria’s political stalemate continues. Al-Monitor (2014). Disponível em: http://www.al-monitor.com/pulse/politics/2014/06/algeria-regime-opposition-weak-bouteflika.html
Artigo da Edição 40 do Informativo PesquisABC.
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