Desvendando a Microbiota Yanomami: O Que Microrganismos de Povos Indígenas Revelam sobre a Nossa Saúde
Lucas Amoroso Lopes de Carvalho, Luciana Campos Paulino*
Centro de Ciências Naturais e Humanas (CCNH), Universidade Federal do ABC (UFABC), Santo André, SP, Brasil
Resumo
O conjunto de microrganismos que habitam o intestino, conhecido como microbiota intestinal, exerce funções essenciais para a saúde, influenciando desde a digestão e imunidade até a saúde mental. A composição dessa microbiota pode ser influenciada por diversos fatores associados a estilos de vida. Para compreender como esses fatores moldam a comunidade microbiana e as possíveis consequências para a saúde, estamos desenvolvendo uma pesquisa em colaboração com colegas da Bélgica. Analisamos a microbiota intestinal Yanomami, um povo indígena que vive na floresta Amazônica, em comparação com a microbiota de pessoas belgas, que têm estilo de vida urbanizado. Amostras de fezes foram submetidas a sequenciamento de DNA e análises bioinformáticas, permitindo identificar quais bactérias estavam presentes. Os resultados revelam diferenças claras: nos Yanomami, predomina o gênero Prevotella, associado a dietas ricas em fibras vegetais, além da presença de bactérias pouco comuns em populações urbanas, como Cryptobacteroides. Nos belgas destacam-se Bacteroides e Blautia, relacionados a dietas típicas de sociedades industrializadas. Essas descobertas reforçam que o estilo de vida desempenha um papel central na configuração da microbiota intestinal e sugerem que populações tradicionais podem abrigar microrganismos importantes para a saúde, oferecendo pistas valiosas para o desenvolvimento de terapias e estratégias de prevenção de doenças.
Palavras-chave: microbiota intestinal; metagenômica; diversidade microbiana; populações não-urbanizadas; disbiose
Abstract
The community of microorganisms that inhabit the human gut, known as the gut microbiota, plays essential roles in health, influencing digestion, immunity, and even mental well-being. Its composition might be shaped by several lifestyle-related factors. To understand how these factors shape microbial communities and their possible consequences for health, we are conducting a collaborative study with colleagues in Belgium. We analyzed the gut microbiota of the Yanomami, an Indigenous people living in the Amazon rainforest, and compared it with that of Belgian individuals with an urbanized lifestyle. Fecal samples were subjected to DNA sequencing and bioinformatic analyses, allowing us to identify which bacteria were present. Clear differences emerged: among the Yanomami, the genus Prevotella predominated, a bacterium associated with fiber-rich diets, along with bacteria rarely found in urban populations, such as Cryptobacteroides. In Belgians, Bacteroides and Blautia stood out, linked to dietary patterns typical of industrialized societies. These findings reinforce that lifestyle plays a central role in shaping the gut microbiota and suggest that traditional populations may harbor microorganisms important for health, offering valuable insights for the development of therapies and disease prevention strategies.
Keywords: gut microbiota; metagenomics; microbial diversity; non-urbanized populations; dysbiosis
* E-mail do autor de correspondência: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
ORCID: LALC (0000-0001-6222-4534), LCP (0000-0003-2421-5236)
O que é a microbiota intestinal e qual o seu papel?
A microbiota intestinal é uma comunidade formada por trilhões de microrganismos que vivem em nosso intestino e desempenham funções essenciais para a nossa saúde. Além de ajudar na digestão e na absorção de nutrientes, ela participa do metabolismo, fortalece o sistema imunológico e protege contra microrganismos nocivos [1]. Muitos pesquisadores a descrevem como um “órgão extra” do corpo, dado o alcance e a relevância de suas funções.
Nos últimos anos, descobriu-se que sua influência vai muito além do intestino. Através do chamado eixo intestino-cérebro, existe uma comunicação entre o sistema nervoso, o sistema imunológico e a microbiota. Isso permite que esses microrganismos influenciem desde humor e cognição, até o risco de transtornos como depressão e ansiedade [2]. O equilíbrio dessa comunidade é fundamental para a saúde: quando ocorre um desequilíbrio, processo conhecido como disbiose, aumenta-se a suscetibilidade a diversas doenças. Esse estado pode ser influenciado por fatores como dieta, uso de antibióticos e até eventos iniciais da vida, como tipo de parto e amamentação [3,4].
Quem são os Yanomami e por que estudar sua microbiota?
Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas da América do Sul, vivendo na floresta Amazônica, no Brasil e na Venezuela. No Brasil, suas comunidades, chamadas de xaponos, estão localizadas nos estados de Roraima e Amazonas. Eles praticam uma economia de subsistência baseada em caça, pesca, coleta e agricultura itinerante de pequena escala, cultivando, por exemplo, mandioca, milho e banana. Seu modo de vida está intimamente ligado ao conhecimento ecológico e à convivência coletiva, com práticas culturais e espirituais que reforçam sua relação com a floresta [5–7].
A dieta Yanomami, rica em fibras, alimentos naturais e proteínas de origem silvestre, contrasta fortemente com a dieta de sociedades urbanizadas, dominada por alimentos ultraprocessados, carboidratos refinados e produtos de origem animal industrializados.
Essa diferença é importante porque a alimentação moderna, aliada ao uso frequente de medicamentos e outros hábitos urbanos, está associada a alterações na microbiota intestinal que podem reduzir a diversidade microbiana e comprometer sua função protetiva. Tais mudanças podem estar associadas ao aumento de doenças crônicas como obesidade, diabetes, distúrbios metabólicos, doenças autoimunes e diversos tipos de câncer [3,4].
Diante disso, os Yanomami representam um contraponto fundamental: por manterem hábitos tradicionais, eles podem abrigar uma comunidade microbiana que se assemelha a microbiota humana ancestral, com espécies que estão desaparecendo em populações industrializadas. Nosso projeto, intitulado “Análise funcional da microbiota Yanomami: investigando seus efeitos na imunidade e no desenvolvimento do câncer colorretal” (conceitualizado na Figura 1), parte da hipótese de que os microrganismos dos Yanomami podem exercer papéis protetivos contra doenças que hoje afetam cada vez mais sociedades urbanas.
Esse projeto está sendo financiado pela FAPESP em parceria com a FWO (processo nº 24/08541-5), sob coordenação da Profa. Luciana Campos Paulino, do Laboratório de Microbiologia Molecular Aplicada à Saúde da UFABC (LabMicro-UFABC), e do Prof. Lars Vereecke (Universidade de Gante, Bélgica). A pesquisa conta também com a colaboração da Profa. Emma Allen-Vercoe (Universidade de Guelph, Canadá). O estudo compara a microbiota de três comunidades Yanomami com diferentes graus de contato urbano à de uma população europeia urbanizada (cidadãos belgas), buscando compreender como a urbanização influencia na diversidade e no funcionamento microbiano.
Como estudar a microbiota intestinal?
Para investigar a microbiota intestinal dos Yanomami, foram coletadas amostras de fezes, representativas dos microrganismos presentes no intestino. Essas coletas ocorreram durante expedição à floresta Amazônica e seguiram rigorosamente as diretrizes éticas aplicáveis a pesquisas com povos indígenas.
O passo seguinte foi o sequenciamento de DNA, uma técnica que permite “ler” o material genético dos microrganismos presentes na amostra. Quando aplicado a comunidades inteiras de microrganismos, esse processo é chamado de sequenciamento metagenômico, termo que indica o estudo de muitos genomas ao mesmo tempo [8].
O resultado do processo de sequenciamento é milhões de fragmentos de sequências de DNA, representados por combinações das letras A, T, C e G que, por sua vez, representam os nucleotídeos, as unidades básicas formadoras do DNA. A ordem dos nucleotídeos permite identificar as espécies de bactérias e os genes que elas possuem, através da comparação com bancos de dados de sequências já conhecidas.
A partir desses dados, entra a etapa de bioinformática, que consiste na aplicação de uma série de ferramentas computacionais, capazes de transformar as sequências de DNA em informações biológicas úteis. Isso envolve: (1) remover sequências de baixa qualidade, (2) combinar os fragmentos em conjuntos maiores, como montar peças de um quebra-cabeça (montagem), e (3) anotar as sequências, ou seja, identificar a qual espécie microbiana pertencem e quais genes e funções estão associados a elas.
Com esse processo, foi possível obter a composição da microbiota de 78 indivíduos Yanomami e 39 belgas, determinando quais microrganismos estavam presentes e em que proporções. Esses dados constituem a base para comparar o impacto da urbanização na diversidade e no funcionamento da microbiota intestinal.

Figura 1. Esquema do projeto de pesquisa para comparação da microbiota Yanomami e de uma população urbanizada europeia. O fluxograma ilustra as etapas principais: (1) seleção dos grupos de estudo com estilo de vida contrastante;(2) coleta de amostras de fezes, que refletem a microbiota intestinal e podem conter bactérias desconhecidas e potencialmente benéficas; (3) sequenciamento de DNA, que faz a leitura do material genético; e (4) análises bioinformáticas, que organizam e interpretam as sequências de DNA para identificar quais microrganismos estão presentes e quais funções eles exercem. Figura elaborada pelos autores com ícones de FLATICON (https://www.flaticon.com/).
O que já descobrimos?
Ao analisar a composição da microbiota intestinal, encontramos diferenças marcantes entre os Yanomami e os cidadãos belgas (Figura 2, esquerda). Curiosamente, algumas poucas amostras Yanomami se aproximaram mais das belgas, e vice-versa. Isso mostra que, embora o contraste entre os grupos seja evidente, fatores além da etnia também podem influenciar a formação da microbiota humana.
Um achado consistente foi a predominância do gênero Prevotella nas amostras Yanomami (Figura 2, centro). Essas bactérias são conhecidas por digerir carboidratos complexos e quebrar fibras vegetais, produzindo metabólitos benéficos ao organismo. Esse padrão já foi observado em estudos anteriores com outras populações indígenas, em que a dieta tradicional rica em fibras favorece a presença de Prevotella [4,9,10].
Outro aspecto importante foi a diversidade microbiana; ou seja, a variedade de bactérias presentes nas amostras e a suas quantidades. Populações pouco ou não urbanizadas são, geralmente, associadas a altos valores de diversidade [4,11]. Contudo, aqui observamos uma grande variação dentro do grupo Yanomami: alguns indivíduos exibiram valores muito altos de diversidade, enquanto outros apresentaram índices baixos (Figura 2, direita). Esse resultado reforça a importância de trabalhar com amostras numerosas, já que diferenças individuais podem ser grandes e impactar a comparação entre populações.
Figura 2. Representação gráfica mostrando como as amostras se agrupam de acordo com a semelhança entre suas bactérias intestinais. Cada ponto representa a microbiota intestinal de um indivíduo. Quanto mais distantes os pontos, mais diferentes são as microbiotas. As cores indicam diferentes aspectos analisados: a população (à esquerda), bactéria mais abundante em cada microbiota (ao centro) e a diversidade bacteriana (à direita). Gráficos elaborados pelos autores.
Ao olhar mais de perto para os perfis de gêneros bacterianos, encontramos contrastes expressivos (Figura 3). Em média, os belgas apresentaram proporções mais elevadas de Bacteroides, Gemmiger, Faecalibacterium, Agathobacter e Blautia, sendo este último o mais abundante na população urbanizada. Já os Yanomami apresentaram níveis muito superiores de Prevotella (mais de cinco vezes em relação aos belgas) e de Cryptobacteroides, um gênero recém-descoberto e associado à quebra de carboidratos complexos [12].
Essas diferenças sugerem alterações funcionais relevantes. O gênero Bacteroides, típico de dietas ricas em proteína animal, gordura e alimentos processados, tem sido associado a infecções oportunísticas e à presença de genes de resistência a antibióticos [13,14]. Em contraste, o maior predomínio de Cryptobacteroides entre os Yanomami pode indicar uma adaptação a dietas ricas em fibras vegetais, com a presença de enzimas que participam da degradação de carboidratos.
Vale destacar que nem todos os achados favorecem necessariamente o estilo de vida tradicional. Entre os belgas, por exemplo, o gênero Gemmiger foi mais abundante e está ligado à produção de butirato, um lipídeo que exerce funções anti-inflamatórias, podendo contribuir para a saúde do cólon intestinal [15]. Este gênero está presente em níveis reduzidos em pessoas com obesidade [16].
Figura 3. Composição média das bactérias intestinais de indivíduos Yanomami (à esquerda) e belgas (à direita). As cores representam os 10 gêneros bacterianos mais abundantes na média geral. Aqueles menos frequentes foram agrupados em “Outros”. Observa-se que bactérias diferentes predominam em cada população, possivelmente refletindo variações de dieta e estilo de vida. Gráficos elaborados pelos autores.
O que falta descobrir e quais são os potenciais frutos dessa pesquisa?
Dadas as diferenças já observadas na composição da microbiota, é natural supor que seu funcionamento também seja distinto. Nosso próximo passo é avaliar a funcionalidade dessas comunidades microbianas, ou seja, identificar quais genes e enzimas estão presentes e como eles se relacionam aos hábitos alimentares e de vida de cada população. O objetivo central é entender de que forma essas funções podem influenciar processos de saúde e doença, com atenção especial ao papel da microbiota no desenvolvimento e na possível prevenção do câncer colorretal.
O projeto também chama atenção para uma questão ética e científica importante: a maior parte do conhecimento atual sobre a microbiota humana vem de populações urbanizadas dos Estados Unidos e da Europa [17]. Assim, comunidades tradicionais, como os Yanomami, permanecem sub-representadas em bancos de dados biológicos. Ao estudar a microbiota dessas populações, buscamos não apenas ampliar o entendimento científico, mas também contribuir para a conservação de microrganismos que podem já ter desaparecido em contextos urbanizados, mas que ainda desempenham papéis cruciais para a saúde [18].
As próximas etapas também incluem o isolamento e cultivo em laboratório de microrganismos de interesse. Esse processo permitirá investigar seu potencial como base para novos produtos biotecnológicos e terapêuticos, como probióticos, alimentos funcionais que estimulem seu crescimento e medicamentos direcionados à prevenção e ao tratamento de doenças intestinais.
Nossos agradecimentos
Agradecemos aos órgãos de apoio à pesquisa, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e Research Foundation - Flanders (FWO), pelo financiamento desta pesquisa (processo nº 24/08541-5), bem como pela bolsa de pós-doutorado concedida ao Lucas Amoroso Lopes de Carvalho (nº 25/08894-8).
Estendemos nossos agradecimentos aos colaboradores do projeto, cujo trabalho conjunto tornou esta pesquisa possível: Maarten Ciers, Marie Thorp, Dr. Chris Callewaert e Prof. Lars Vereecke (Universidade de Gante, Bélgica); David Good e Profa. Emma Allen-Vercoe (Universidade de Guelph, Canadá).
Somos profundamente gratos às lideranças indígenas, à Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), à ONG Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (SECOYA), à Associação Kurikama Yanomami, à Yanomami Foundation e aos voluntários que participaram dessa pesquisa.
Referências Bibliográficas
- Thursby, E. & Juge, N. Introduction to the human gut microbiota. Biochemical Journal 474, 1823–1836 (2017).
- Collins, S. M., Surette, M. & Bercik, P. The interplay between the intestinal microbiota and the brain. Nat Rev Microbiol 10, 735–742 (2012).
- Matute, S. P. & Iyavoo, S. Exploring the gut microbiota: lifestyle choices, disease associations, and personal genomics. Front. Nutr. 10, 1225120 (2023).
- Sonnenburg, E. D. & Sonnenburg, J. L. The ancestral and industrialized gut microbiota and implications for human health. Nat Rev Microbiol 17, 383–390 (2019).
- The Yanomami. Yanomami Foundation https://www.yanomamifoundation.org/yanomami (Acesso em: 10 Set. 2025).
- Secoya | Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami | Yanomami. SECOYA https://www.secoya.org.br/yanomami (Acesso em: 10 Set. 2025).
- Albert, B. & Le Tourneau, F. Ethnogeography and Resource Use among the Yanomami: Toward a Model of “Reticular Space”. Current Anthropology 48, 584–592 (2007).
- Handelsman, J. Metagenomics: Application of Genomics to Uncultured Microorganisms. MMBR 68, 669–685 (2004).
- Carter, M. M. et al. Ultra-deep sequencing of Hadza hunter-gatherers recovers vanishing gut microbes. Cell 186, 3111-3124.e13 (2023).
- Gomez, A. et al. Gut Microbiome of Coexisting BaAka Pygmies and Bantu Reflects Gradients of Traditional Subsistence Patterns. Cell Reports 14, 2142–2153 (2016).
- Clemente, J. C. et al. The microbiome of uncontacted Amerindians. Sci. Adv. 1, e1500183 (2015).
- Xu, B. et al. Large-scale metagenomic assembly provide new insights into the genetic evolution of gut microbiomes in plateau ungulates. npj Biofilms Microbiomes 10, 120 (2024).
- Wexler, H. M. Bacteroides : the Good, the Bad, and the Nitty-Gritty. Clin Microbiol Rev 20, 593–621 (2007).
- Pricop, G. R. et al. Resistance and Virulence Features of Bacteroides spp. Isolated from Abdominal Infections in Romanian Patients. Pathogens 9, 940 (2020).
- Lu, X., Ma, J. & Li, R. Alterations of gut microbiota in biopsy-proven diabetic nephropathy and a long history of diabetes without kidney damage. Sci Rep 13, 12150 (2023).
- Duan, M. et al. Characteristics of gut microbiota in people with obesity. PLoS ONE 16, e0255446 (2021).
- Arif, S. J., Graham, S. P., Abdill, R. J. & Blekhman, R. Analyzing human gut microbiome data from global populations: challenges and resources. Trends in Microbiology S0966842X25001556 (2025).
- Bowers, R. M. Gone with a trace: cataloguing the disappearing gut microbes. Nat Rev Microbiol 21, 704–704 (2023).
Artigo da Edição 40 do Informativo PesquisABC.
Redes Sociais