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Página inicial > Divulgação Científica > PesquisABC > Edição nº 40 - Janeiro de 2026 > Educação Inclusiva e Cultura Oceânica: O que Acontece Quando Professores São Desafiados a Criar Novas Práticas?
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Educação Inclusiva e Cultura Oceânica: O que Acontece Quando Professores São Desafiados a Criar Novas Práticas?

Sandra Felix Santos*, Natalia Pirani Ghilardi-Lopes**

* Programa de pós-graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática - Universidade Federal do ABC

** Centro de Ciências Naturais e Humanas - Universidade Federal do ABC

 

Resumo

Diante da crescente busca por uma sociedade mais justa, a promoção da inclusão na educação se tornou um objetivo crucial no século XXI. A promoção da cultura oceânica é também urgente, visto que estamos inseridos, de 2021 a 2030, na Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que visa a geração e disseminação de informações e dados para a compreensão e conservação do Oceano. O objetivo deste estudo é relatar e analisar os processos formativos desenvolvidos em dois cursos de formação docente — um realizado no Brasil (2022) e outro em Portugal (2024) — voltados à elaboração de materiais didáticos acessíveis, com ênfase na cultura oceânica, no uso da comunicação multimodal e nos princípios do Desenho Universal de Aprendizagem (DUA). O estudo adotou uma abordagem qualitativa, com as técnicas de observação participante e coleta de dados por meio de questionários, visando compreender a contribuição do processo formativo para a prática pedagógica dos professores participantes. Os resultados foram positivos, evidenciando um forte interesse na ampliação de seus conhecimentos sobre Educação Inclusiva e contribuindo no fortalecimento do compromisso dos educadores com estratégias inovadoras e acessíveis, que possibilitam um ensino mais equitativo e diversificado.

Palavras-chave: formação de professores; materiais didáticos; educação inclusiva; cultura oceânica; desenho universal para a aprendizagem; multimodalidade.

 

Abstract

In light of the growing pursuit of a more just society, the promotion of inclusion in education has become a crucial goal of the 21st century. The advancement of ocean literacy is also an urgent matter, given that the period from 2021 to 2030 has been designated as the Decade of Ocean Science for Sustainable Development, aiming to generate and disseminate knowledge and data for the understanding and conservation of the ocean. This study aims to report and analyze the training processes developed in two teacher training courses — one conducted in Brazil (2022) and another in Portugal (2024) — focused on the creation of accessible educational materials, with an emphasis on ocean literacy, the use of multimodal communication, and the principles of Universal Design for Learning (UDL). A qualitative approach was adopted, utilizing participant observation and data collection through questionnaires to understand the contribution of the training process to the pedagogical practices of the participating teachers. The results were positive, revealing a strong interest in expanding their knowledge of Inclusive Education and reinforcing educators’ commitment to innovative and accessible strategies that enable more equitable and diverse teaching.

Keywords: teacher training; educational materials; inclusive education; ocean literacy; universal design for learning; multimodality.

 

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ORCID ID https://orcid.org/0000-0001-6289-6744

 

Introdução

A escola ainda carrega muitos desafios quando o assunto é inclusão. Tornar o conteúdo acessível a todos os estudantes — incluindo aqueles com deficiência — exige mais do que boa vontade: é preciso conhecimento técnico, sensibilidade e, acima de tudo, formação adequada. Mas e se essa formação vier associada a temas que despertam o interesse social, como a conservação dos oceanos? Foi exatamente isso que propuseram dois cursos de extensão universitária, realizados pela Universidade Federal do ABC em parceria com o Centro de Formação de Escolas António Sérgio, com professores do Brasil e de Portugal, cujos resultados ajudam a repensar a forma como a educação pode, de fato, ser para todos.

 

Uma Experiência de Formação com Impacto Real

Os cursos foram pensados para ir além do discurso. A proposta era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: capacitar professores para criarem materiais didáticos inclusivos, aplicando os princípios do Desenho Universal de Aprendizagem (DUA) e, ao mesmo tempo, trabalhando a temática da cultura oceânica, alinhada aos objetivos da Década do Oceano (2021-2030) da Unesco.

Os números já sinalizavam o sucesso da proposta: na primeira edição, as 60 vagas oferecidas foram rapidamente superadas por 98 inscrições. Na segunda edição, ofertadas 17 vagas, houve 23 interessados. Os participantes produziram 41 propostas de materiais didáticos inclusivos multimodais, revelando um alto grau de engajamento e criatividade.

A estrutura dos cursos pode ser verificada na Figura 1:

Figura 1. Estrutura dos cursos de formação de professores em elaboração de materiais didáticos em cultura oceânica inclusiva.

figura1 inclusiva pesquisabc 40

 

O que Foi Produzido?

Entre livros e cartazes táteis com braille e imagens em relevo, vídeos com audiodescrição e tradução em Libras ou LGP, e jogos educativos adaptados, os professores demonstraram que, quando bem orientados, são plenamente capazes de construir propostas acessíveis. Esses materiais não eram apenas exercícios teóricos, mas tentativas genuínas de romper com a lógica excludente que ainda permeia muitas práticas escolares.

A análise dos materiais evidenciou que a formação possibilitou uma apropriação progressiva de conceitos como multimodalidade, tecnologias assistivas e comunicação alternativa, todos fundamentais para uma educação verdadeiramente inclusiva. Além disso, os planejamentos e justificativas dos professores demonstraram que a escolha dos recursos acessíveis partia do reconhecimento das barreiras específicas enfrentadas por seus alunos reais, indicando um olhar atento às suas turmas.

A Figura 2 mostra um exemplo de material elaborado por um dos professores:

Figura 2. Exemplo de material didático inclusivo, contendo ilustração, texto em língua portuguesa, braille e datilologia Libras.

figura2 inclusiva pesquisabc 40

 

Cultura Oceânica: Mais que Tema, Um Caminho Interdisciplinar

A escolha da cultura oceânica como tema transversal foi especialmente significativa. Ela funcionou como um eixo articulador entre as áreas do conhecimento e os direitos humanos, permitindo reflexões sobre o cuidado com o meio ambiente e a responsabilidade coletiva. Professores relataram, nos feedbacks, que essa abordagem ampliou sua compreensão sobre sustentabilidade e os motivou a repensar o currículo escolar a partir de uma perspectiva mais crítica e global.

Essa integração entre inclusão e meio ambiente resgata o papel social da escola: formar cidadãos que compreendem o mundo em sua complexidade e diversidade.

A Figura 3 mostra um exemplo de material didático com exploração sensorial dos elementos poluidores do Oceano.

Figura 3. Exemplo de material didático elaborado por um dos professores.

figura3 inclusiva pesquisabc 40

 

A Importância da Produção Coletiva

Uma das grandes inovações metodológicas da segunda edição do curso foi a realização de atividades em grupo. Ao contrário da primeira edição, que teve produções individuais, a nova abordagem priorizou o trabalho colaborativo — algo que se mostrou fundamental para quebrar barreiras emocionais e técnicas. A adaptação coletiva do livro “Suvaco no Mundo dos Corais” (Del Favero, 2021), por exemplo, estimulou a troca de ideias, a análise crítica e a superação de inseguranças quanto ao uso de recursos acessíveis.

Esse processo reafirma a importância do trabalho colaborativo na formação docente, como apontam autoras como Pletsch (2009) e Mantoan (2003). O diálogo entre pares e o enfrentamento conjunto de desafios contribuem para o fortalecimento da autonomia profissional dos professores.

 

O Braille: Entre o Medo e a Superação

Entre os diversos recursos explorados, o braille apareceu como o mais desafiador. Muitos professores, especialmente no início, demonstraram resistência, receio e desconhecimento da escrita tátil. O uso de ferramentas como reglete, punção e tinta em relevo foi uma verdadeira novidade para a maioria. Ainda assim, atividades práticas e o uso de softwares como o Atractor¹ ajudaram a desmistificar o sistema, abrindo espaço para seu uso efetivo.

A dificuldade, no entanto, expôs um dado preocupante: a formação inicial de professores ainda falha em preparar os docentes para lidar com tecnologias assistivas, o que torna urgente a ampliação de cursos como este, com ênfase prática e contextualizada.

 

Picto4me²: Facilidade e Adesão

Em contrapartida, o uso do Picto4me, uma ferramenta para produção de pranchas de comunicação alternativa, foi incorporado com facilidade. Sua interface intuitiva e funcionalidade gratuita permitiram a criação de pranchas temáticas sobre cultura oceânica — com vocabulários acessíveis e imagens customizadas — que podem ser imediatamente aplicadas em sala de aula.

¹ Disponível em https://www.atractor.pt/mat/matbr/matbraille.html. Acesso em 27/07/2025.
² Disponível em https://www.picto4.me/. Acesso em 27/07/2025.

Essa aceitação reforça a importância de apresentar ferramentas acessíveis e de fácil integração à rotina pedagógica, o que amplia as chances de uso real e sustentável no cotidiano escolar.

 

Conclusão: Formação Docente como Chave para a Transformação

Os resultados dessa experiência formativa revelam que os professores são, sim, capazes de produzir materiais didáticos acessíveis, criativos e críticos, desde que tenham oportunidade, apoio e espaço para experimentar.

A união entre teoria e prática, o incentivo ao trabalho coletivo e a valorização de temas atuais como a cultura oceânica produziram uma formação potente, que vai além da capacitação técnica: promoveu mudanças de concepção e atitudes frente à inclusão.

Mais do que ensinar recursos, os cursos ajudaram os participantes a compreenderem que educação inclusiva não se limita a adaptar um conteúdo para um estudante específico, mas sim a criar estratégias que favoreçam o aprendizado de todos, como bem define o Desenho Universal de Aprendizagem.

Em tempos de urgência ecológica e necessidade de equidade educacional, apostar na formação continuada dos professores é não apenas necessário, mas um compromisso com um futuro mais justo, acessível e sustentável.

 

Agradecimentos

A realização da segunda edição do curso em Portugal só foi possível graças ao apoio de pessoas e instituições comprometidas com a educação. Agradecemos especialmente ao professor doutor Joaquim Melro, pela parceria com o Centro de Formação de Escolas António Sérgio, em Lisboa, que generosamente acolheu as sessões presenciais da formação. Nosso reconhecimento se estende também à Capes, cujo financiamento do transporte e da estadia da pesquisadora em Portugal, viabilizada por meio do Doutorado Sanduíche (Processo: 88881.846282/2023-01), foi essencial para oportunizar tanto a oferta do curso quanto o desenvolvimento desta pesquisa.

 

Referências bibliográficas

  1. Mantoan, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? (Editora Moderna, 2003).
  2. Pletsch, M. D. Formação de professores para a educação inclusiva: políticas públicas e práticas escolares. Rev. Bras. Educ. 14, 135–152 (2009).
  3. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO). United Nations Decade of Ocean Science for Sustainable Development (2021–2030). https://www.oceandecade.org (2020).
  4. GORDON, D.; MEYER, A.; ROSE, D. H. Universal Design for Learning: Theory and Practice. CAST Professional Publishing, 2016. 200 p. ISBN 978-0989867405.
  5. Del Favero, J. Suvaco no Mundo dos Corais. (Editora do Brasil, 2021).
  6. Sassaki, R. K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. (WVA, 2010).
  7. Mayer, R. E. Multimedia Learning. (Cambridge University Press, 2009).
  8. Kress, G. R. Multimodality: A social semiotic approach to contemporary communication. (Routledge, 2010).

Artigo da Edição 40 do Informativo PesquisABC.

Registrado em: Edição nº 40 - Janeiro de 2026
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