Pilares do Conhecimento sobre a Biodiversidade e Novidades Sobre a Flora da Mata Atlântica
Matheus Fortes Santosaᵃ,*
ᵃ Universidade Federal do ABC, Centro de Ciências Naturais e Humanas, Herbário Sinningia (Central Multiusuário de Biodiversidade e Conservação)
Resumo
Estudos taxonômicos são uma das bases mais efetivas para gerar conhecimento robusto acerca da biodiversidade, apresentando como resultado uma série de informações básicas essenciais. A partir dos dados gerados, inúmeros estudos interdisciplinares podem ser feitos em áreas como a Agricultura, Conservação, Ecologia e Farmacologia. Myrtaceae é uma das famílias de plantas mais diversificadas do Brasil, contando com espécies emblemáticas como a jabuticaba e a pitanga. Neste artigo, é descrita a revisão taxonômica de um de seus grupos. A seção Eugeniopsis do gênero Myrcia foi estudada e o trabalho final conta com descrições morfológicas de suas 16 espécies, informações sobre distribuição e ambiente, além de comentários sobre como identificar cada uma delas. O estudo soma ao corpo de conhecimento da flora brasileira, porém muitos grupos ainda permanecem pouco estudados.
Palavras-chave: América do Sul; Cerrado; Coleções Científicas; Conservação; Flora do Brasil.
Abstract
Taxonomic studies are among the most effective foundations of robust knowledge about biodiversity, providing essential baseline information. The data produced enable further research in fields such as Agriculture, Conservation, Ecology, and Pharmacology. The Myrtaceae is one of the most diverse plant families in Brazil and includes emblematic species such as jabuticaba and pitanga. In this article, we present the taxonomic revision of one of its groups. The section Eugeniopsis of the genus Myrcia was studied, and the final work includes morphological descriptions of its 16 species, information on distribution and habitat, as well as identification notes for each of them. This study adds to the body of knowledge on the Brazilian flora; however, many groups remain poorly studied.
Keywords: Cerrado; Conservation; Flora of Brazil; Scientific collection; South America.
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https://orcid.org/0000-0003-0431-1095
Contexto
Após 10 anos de estudos, foi concluída e publicada a revisão taxonômica em um grupo de plantas muito importante da flora brasileira, a família Myrtaceae. O conhecimento gerado, incluindo uma nova espécie e a caracterização completa de outras 15 espécies, é um tijolinho a mais no castelo de conhecimento sobre a flora brasileira, que vem sendo construído há muitos séculos. Vamos então entender passo a passo o que foi feito.
O que são as revisões taxonômicas?
Toda área do conhecimento humano ao longo do tempo desenvolve um vocabulário e linguagem próprios e um sistema de regras que são difíceis de compreender para quem não é da área. Não é diferente na taxonomia, a área do conhecimento responsável por descrever e classificar os seres vivos, sejam eles animais, bactérias, fungos, plantas, ou qualquer grupo de ser vivo. Quando falamos o nome científico de uma espécie, a família à qual ela pertence, ou que a Amazônia tem uma grande biodiversidade, estamos falando de um conhecimento produzido por um ou vários taxonomistas. Esse conhecimento básico sobre a biodiversidade é fundamental para diversas decisões que são tomadas pela sociedade, como proteger uma determinada área porque nela estão espécies ameaçadas, investigar uma espécie nativa que possa ter uso medicinal ou agrícola, entre várias outras aplicações. Mas e as revisões taxonômicas, o que são?
Como o nome sugere, um trabalho de revisão taxonômica revisa toda a taxonomia de um determinado grupo até aquele momento. Pode ser a revisão de uma família, de um gênero, ou de qualquer outra categoria de classificação. Ao longo de tempo, que pode ser anos, décadas ou até séculos, muitos autores publicam trabalhos taxonômicos sobre um grupo, como espécies novas, sinonimizações (quando duas espécies descritas previamente são consideradas uma só), levantamentos das espécies de uma região (as “floras”), entre outros trabalhos. Além das publicações, há também a coleta de indivíduos na natureza e seu depósito em herbário, uma coleção científica de plantas herborizadas (prensadas e secas), o que geralmente é feito por muitos pesquisadores, não só por aqueles que estudam o grupo.

Figura 1. Exsicata de Myrcia maculata. Exsicata é uma amostra de planta prensada e seca montada em uma cartolina que inclui uma etiqueta com dados de coleta. O material na imagem está depositado no herbário do Jardim Botânico de Meise na Bélgica, e foi utilizado por Berg em 1855 para descrever a espécie Eugeniopsis luschnathiana. Ao ser transferida para o gênero Myrcia, foi criado o nome novo Myrcia maculata (a princípio, o epíteto deveria ser mantido, mas já existia o nome Myrcia luschnathiana).
Chega o momento em que é necessário organizar esse conhecimento, e aí entra o trabalho de revisão taxonômica de um grupo. Esse estudo deve revisar toda a bibliografia do grupo, fazer expedições buscando indivíduos do grupo na natureza e analisar a maior quantidade possível de materiais depositados nas coleções científicas – no estudo que será apresentado, cerca de 1.200 coletas foram analisadas, incluindo materiais do herbário da UFABC. Além disso, as revisões são também trabalhos interdisciplinares, pois geralmente utilizam dados de outras áreas, como a genética (que pode auxiliar na distinção entre duas espécies), geografia (que permite identificar características físicas dos ambientes onde as espécies ocorrem, como o tipo de solo) ou história (por exemplo, para esclarecer o contexto e o local em que foram coletados materiais muito antigos). No fim, a revisão taxonômica fornece descrições da morfologia de cada espécie (de ramos, folhas, flores, frutos etc.), dados de ocorrência e ambiente típicos da espécie, fenologia (quando ela floresce e frutifica), além de comentários sobre como identificar as espécies e diferenciá-las de outras espécies similares.

Figura 2. Distribuição das 1.200 amostras analisadas em relação a Mata Atlântica (verde e azul escuro), Cerrado (laranja), Caatinga (amarelo) e Pampas (azul claro) e os campos rupestres (rosa) – áreas montanhosas formadas por rochas quartzíticas. Veja que a maior parte dos registros é na Mata Atlântica; não há registro na Amazônia.
Mas, quem foi “revisado”?
Nesse trabalho, foi feita a revisão de uma seção (um subgrupo) do gênero Myrcia, que pertence à família das Myrtaceae. As Myrtaceae estão entre as famílias com maior número de espécies na flora brasileira, com destaque principalmente para a Mata Atlântica e o Cerrado, mas sendo também encontrada nos outros biomas. A família ocorre em diversos continentes, principalmente nas regiões tropicais, sendo mais diversificada, além das Américas, no Sudeste Asiático (de onde vem o jambo) e a Oceania (de onde vem o eucalipto). Aqui no Brasil, a família tem muitas espécies nativas comestíveis, como a jabuticaba, o cambuci, os araçás, a uvaia, a guabiroba, o araçá-boi, o camu-camu, entre outras. A espécie mais famosa é a goiaba, há tempos domesticada por povos originários, cujo origem é enigmática, mas que provavelmente teve um ancestral selvagem na América do Sul.

Figura 3. Ramo com flores de Myrcia vellozoi, uma das espécies de Myrcia seção Eugeniopsis.
A família Myrtaceae está dividida em diferentes gêneros aqui nas Américas e o segundo gênero em número de espécies é Myrcia, descrito em 1827 pelo naturalista francês Augustin Pyrame De Candolle, e que ocorre por toda área tropical do continente. Apesar das quase 800 espécies, as Myrcia não são muito famosas, porque não tem frutos grandes que chamem a atenção ou outra característica que as torne atrativas para as pessoas (mas suas flores e frutos são fundamentais para a alimentação de muitos animais!). As suas muitas espécies são chamadas geralmente de guamirim ou cambuí, este segundo nome quando o tronco descasca igual ao da goiabeira. Em grupos grandes como Myrcia, geralmente se tenta subdividi-lo, para que o estudo taxonômico fique mais fácil. O gênero foi recentemente dividido em nove subgrupos (as seções), das quais foi feita a revisão de uma delas, a seção Eugeniopsis.

Figura 4. Material tipo de Myrcia advena. Material tipo é o material citado na descrição de uma espécie, e serve como a referência física para aplicação do nome da espécie. Junto com o texto da descrição, ele define a caracterização dessa espécie.
Esse grupo foi primeiro reconhecido por um naturalista alemão chamado Otto Karl Berg, que o descreveu como gênero em 1855. Depois, o gênero foi considerado sinônimo de outros gêneros, até que em 2018 ele foi proposto como uma seção de Myrcia. O trabalho de revisão, que durou 10 anos, descobriu que esse grupo é composto por 16 espécies (anteriormente eram citadas cerca de 25) que são distribuídas basicamente na Mata Atlântica, com algumas espécies ocorrendo também no cerrado. Neste trabalho, foi descrita uma nova espécie, Myrcia advena, curiosamente a única endêmica do cerrado. Essa espécie ocorre em uma pequena área do Distrito Federal e tem apenas quatro registros conhecidos. O epíteto advena quer dizer migrante em latim, e homenageia os imigrantes que ajudaram a construir Brasília, e faz referência também ao fato de a espécie ser uma “migrante” dentro do grupo, que é mais típico da Mata Atlântica.
Ufa, a revisão taxonômica foi publicada, e agora?
Um trabalho que dura 10 anos e envolve trabalho de campo, visita a herbários – alguns deles em outros países, análise de um grande número de materiais e o estudo de uma vasta bibliografia, não é substituído da noite para o dia. A tendência, é que o trabalho fique como a referência sobre a diversidade de espécies, as caraterísticas típicas, a distribuição das espécies de Myrcia seção Eugeniopsis por um longo tempo. Assim, o trabalho será utilizado para identificar espécies do grupo, estudar o nível de ameaça de extinção delas, somar dados na contabilização do número de espécies da flora brasileira e servir de referência para inúmeros estudos em outras áreas; por exemplo, pode-se testar se alguma planta do grupo tem princípios ativos de uso medicinal. Enquanto isso, os taxonomistas não param: há sempre alguém coletando plantas em algum lugar que podem se revelar uma nova espécie, criando metodologias para diferenciar espécies (envolvendo, por exemplo, partes do DNA e quem sabe Inteligência Artificial), e assim por diante. Até que, um dia, algum grupo de pesquisa novamente revisará a taxonomia do grupo. Porém, antes disso, é fundamental estudar os outros grupos de Myrtaceae e outras famílias de plantas da flora brasileira que ainda não tem um estudo taxonômico abrangente – sem esse conhecimento, não é possível preservar nem explorar nossa biodiversidade.
Agradecimentos
Esse trabalho contou com o apoio financeiro do CNPq (bolsa de pós-doutorado processo #150217/2016-1) e da FAPESP (processo #2023/13513-8). O estudo das coleções científicas não seria possível sem ajuda da equipe de curadoria de cada uma delas; as equipes das unidades de conservação e as muitas pessoas que auxiliaram nos trabalhos de campo foram essenciais para estudar as espécies na natureza.
Referências bibliográficas
- Berg, O. Revisio Myrtacearum Americae. Linnaea 27, 1–472 (1855–1856).
- De Candolle, A. P. Myrtacées. In: Bory de Saint-Vincent, J. B. G. M. (Ed.) Dict. Class. Hist. Nat. 11, 399–403 (1827).
- Fernandes, T. et al. Flora do Rio de Janeiro: Myrcia sect. Eugeniopsis (Myrtaceae). Pesqui., Bot. 74, 101–120 (2020).
- Lucas, E. et al. A new infra-generic classification of the species-rich Neotropical genus Myrcia s.l. Kew Bull. 73, 9 (2018).
- Santos, M. F. Taxonomic monograph of Myrcia sect. Eugeniopsis (Myrciinae, Myrteae, Myrtaceae), am endemic clade of Eastern South America. Phytotaxa 703, 1-100 (2025).
- Santos, M. F. et al. A taxonomic account of Myrciinae (Myrteae, Myrtaceae): generic and sectional placement of forgotten species and a list of all accepted species. Phytotaxa 674, 129–170 (2024).
Artigo da Edição 40 do Informativo PesquisABC.
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