Projeto Demonstradores 2.0: Desenvolvimento, Aplicação e Difusão de Melhorias para Ampliar a Competitividade das Ferramentarias Brasileiras
Eduardo Christiano Ceconeᵃ*, Luiz Alberto Paoliello Alvimᵇ, André Schwanz de Limaᶜ
ᵃ Pesquisador Colaborador do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas - CECS - Universidade Federal do ABC – UFABC
ᵇ Pesquisador Colaborador do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas - CECS - Universidade Federal do ABC – UFABC
ᶜ Docente do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas - CECS - Universidade Federal do ABC - UFABC
Resumo
Sob a liderança da Fundação de Apoio da UFMG (Fundep), com coordenação técnica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e, em uma parceria entre o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), coordenador geral, a Universidade Federal do ABC (UFABC) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Projeto Demonstradores 2.0 faz parte da Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) e visa enfrentar os desafios das ferramentarias com foco no aumento de produtividade e atualização tecnológica. O objetivo é transformar a cadeia de ferramentais para produtos automotivos em um modelo de competitividade global. Focado na nova industrialização e inovação, o programa busca otimizar prazos, custos e qualidade em todas as etapas da produção de ferramentais, capacitando as empresas brasileiras para atender à demanda interna e se destacar no mercado internacional. Após a primeira fase dos projetos Demonstradores, composta pelos Projetos DEMESTAA, DECOLAB e MISCAE, que mapeou a situação atual do setor e identificou gargalos tecnológicos e produtivos, o projeto avança para a segunda fase: Demonstradores 2.0. Esta etapa propõe um novo modelo de operação, baseado em empresas especializadas em cada fase do desenvolvimento do ferramental, suportadas por uma plataforma digital.
Palavras-chave: indústria; ferramentaria; estampo; manufatura de estampos.
Abstract
Led by the UFMG Support Foundation (Fundep), with technical coordination from the Institute of Technological Research (IPT), and a partnership between the Aeronautics Institute of Technology (ITA), general coordinator, the Federal University of ABC (UFABC), and the Getúlio Vargas Foundation (FGV), the Demonstrators 2.0 Project is part of Track IV – More Competitive Brazilian Toolmakers, of the Mover (Green Mobility and Innovation) program. It aims to address the challenges facing toolmakers by focusing on increasing productivity and technological advancement. The goal is to transform the automotive tooling chain into a model of global competitiveness. Focused on new industrialization and innovation, the program aims to optimize lead times, costs, and quality at all stages of tooling production, enabling Brazilian companies to meet domestic demand and compete effectively in the international market. Following the first phase of the Demonstrator projects, comprised of the DEMESTAA, DECOLAB, and MISCAE projects, which mapped the current state of the sector and identified technological and production bottlenecks, the project is now moving on to the second phase: Demonstrator 2.0. This phase proposes a new operational model, based on companies specializing in each phase of tooling development, supported by a digital platform.
Keywords: industry; tooling; stamping; stamp manufacturing.
ᵃ * Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
ORCID ID 0000-0001-6276-352X (https://orcid.org/0000-0001-6276-352X)
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ORCID ID 0009-0004-3696-8512 (https://orcid.org/0009-0004-3696-8512)
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ORCID ID 0000-0002-3289-338X (https://orcid.org/0000-0002-3289-338X)
Introdução
A situação das ferramentarias no Brasil é desafiadora, enfrentando problemas como concorrência internacional, necessidade de modernização tecnológica e falta de mão de obra qualificada. Com aproximadamente 2.000 ferramentarias, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, o setor apresenta perspectivas promissoras. O segmento automotivo, que representa 70% dos projetos de moldes, planeja investir R$ 36,7 bilhões nos próximos anos. Contudo, a capacidade produtiva atual só consegue atender a 30% dessa demanda. Globalmente, o setor de ferramentarias movimenta cerca de US$ 42 bilhões por ano, enquanto o Brasil representa apenas 0,4% desse total. A principal concorrência para as ferramentarias nacionais vem do mercado internacional, especialmente da China, que abastece aproximadamente 30% do mercado mundial com produtos de ferramentarias, segundo especialistas [1] [2].
Diante desse cenário, nasceu para os novos projetos das montadoras automotivas, o programa do governo ROTA 2030, que procedeu ao programa INOVAR AUTO, cujo objetivo era aumentar a eficiência e a competitividade da indústria do setor automotivo. O ROTA 2030 segue esse caminho, mas com o objetivo de modernizar o segmento automotivo e alavancar seu crescimento [2].
O objetivo é transformar a cadeia de ferramentais para produtos automotivos em um modelo de competitividade global. Focado na neoindustrialização e inovação, o programa busca otimizar prazos, custos e qualidade em todas as etapas da produção de ferramentais, capacitando as empresas brasileiras para atender à demanda interna e se destacar no mercado internacional [2].
A execução do projeto teve uma primeira fase, chamada de Demonstradores 1.0 e composta pelos Projetos DEMESTAA (Demonstrador de Estampagem de Superfícies Classe A), DECOLAB (Demonstrador de Estampagem de Painel Estrutural - Coluna B) e MISCAE (Modelagem e Identificação de Defeitos em Superfícies Classe A e Estruturas Estampadas). Agora a pesquisa avança em sua nova fase, com o Demonstradores 2.0. Este projeto está situado na Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, do programa Mover, coordenado pela Fundep, teve seu contrato assinado e publicado no Diário Oficial da União em 19/12/2024. A segunda fase, liderada pelo ITA em parceria com a UFABC e a FGV, avaliará os impactos dos demonstradores da primeira etapa e aprimorará modelagens e protótipos para aumentar a competitividade das ferramentarias brasileiras no mercado automotivo, com custos mais baixos e alta produtividade. O investimento total será de R$ 33,4 milhões, com duração de 36 meses [4].
Os resultados da primeira fase, que incluiu os projetos DEMESTAA e MISCAE e DECOLAB, com a participação de 20 empresas, identificaram melhorias e desafios tecnológicos e organizacionais. O mercado de ferramentarias brasileiro é complexo e a fase inicial revelou gargalos em áreas como finanças, tecnologia e gestão [4].
Para entender o trabalho a ser desenvolvido na segunda fase, com os Demonstradores 2.0 e os resultados esperados, é preciso mencionar o que foi produzido na primeira fase, com os Demonstradores 1.0.
Metodologia
Demonstradores 1.0
Um demonstrador é um protótipo criado para avaliar a capacidade de processos, tecnologias ou produtos em um setor específico. No projeto de Demonstradores, especialmente no setor de ferramentarias, ele serve como um experimento prático para identificar problemas, testar soluções e otimizar processos de fabricação [4].
Os demonstradores funcionam como uma forma controlada de identificar os gargalos que impactam a produção. Durante o primeiro ciclo, observou-se, entre outros gargalos, a falta de padronização e os problemas no fluxo de caixa, além de defeitos na matéria-prima [4].
Na primeira fase, foram tocados três projetos: DEMESTAA, DECOLAB e MISCAE.
Figura 1. Projeto Demonstradores 1.0

Na primeira fase foram realizadas atividades de mapeamento dos processos e de gargalos, diagnóstico de competitividade das ferramentarias, Workshops de integração e desenvolvimento, aplicação e divulgação de melhorias pontuais, obtendo-se os seguintes resultados [4]:
- Diagnóstico de competitividade: Projetos DEMESTAA, DECOLAB e MISCAE identificaram gargalos no setor.
- Participação conjunta: Mais de 20 empresas, incluindo ferramentarias e montadoras, mapearam processos com três ICTs, resultando em melhorias na qualidade e produtividade.
- Ecossistema de integração setorial: Os projetos promoveram colaboração e discussões sobre inovação, evidenciando problemas comuns entre as empresas.
- Indicadores de performance: Criaram-se indicadores para medir desempenho e identificar áreas de melhoria, visando competitividade global.
- Construção de ferramentais: Desenvolvimento dos demonstradores gerou experiências práticas, melhorando qualidade e reduzindo custos e tempo de produção.
- Otimização de processos: Introdução de novas tecnologias e métodos, como inteligência artificial, para aumentar eficiência e reduzir desperdícios.
- Expectativas futuras: O Projeto Demonstradores 2.0 visa implementar soluções para resolver os gargalos identificados, com subprojetos específicos.
- Fortalecimento do setor: A união entre empresas e ICTs é crucial para recuperar o setor, aumentando a qualificação das ferramentarias e reduzindo a dependência de importações.
Figura 2.– Etapas de desenvolvimento do Projeto Demonstradores 1.0

Demonstradores 2.0
Após obter resultados positivos na primeira fase, em que se mapeou a situação atual do setor e identificou gargalos tecnológicos e produtivos, o Demonstradores avança em sua versão 2.0. O objetivo agora é utilizar os dados e insights dos diagnósticos coletados no primeiro ciclo para aprimorar o processo produtivo das ferramentarias. Essa iniciativa faz parte da Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), liderado pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) juntamente com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), segue com novos subprojetos, que estarão sob coordenação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em parceria com a Universidade Federal do ABC (UFABC) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) [2].
Esta nova etapa propõe um novo modelo de operação, baseado em empresas especializadas em cada fase do desenvolvimento do ferramental, suportadas por uma plataforma digital tecnológica [3].
A proposta de projeto Demonstrador 2.0 mantém a lógica de quantificação e resultados por meio da fabricação de matrizes de demonstração, fabricados com a implementação de melhorias tecnológicas visando superar gargalos identificados no projeto anterior e utilizando-se uma nova lógica de contratação, por empresa especialista, por intermédio do conceito de plataforma [2] [3].
Figura 3.– Subprojetos do Projeto Demonstradores 2.0

Nesta segunda fase, o projeto está dividido em 11 subprojetos:
- Padronização de componentes: Uniformização de insumos na fabricação de ferramentais para compras em maior quantidade e redução de custos.
- Fundição: Melhoria da qualidade e precisão com ferramentas atuais, como simulação e near net shape, visando menos não conformidades e tempo de usinagem.
- Usinagem: Incorporação de novas ferramentas, máquinas e software, além da criação de rotinas para otimização de processos.
- Montagem: Aplicação de rotinas diferenciadas e conceitos Lean para reduzir tempos e falhas nos processos de montagem.
- Monitoramento: Soluções para evitar desperdícios, quantificando ganhos na aplicação dos demonstradores.
- Fluxo de caixa: Identificação de oportunidades e parcerias para serviços financeiros que não prejudiquem o fluxo de desembolso.
- Capacitação de gestores: Treinamento para gestores lidarem com novos desafios, direcionando esforços e decisões eficazmente.
- DECOLAB 2.0: Avaliação e quantificação dos ganhos após implantações tecnológicas e operacionais.
- Gestão do consórcio: Consultores para identificar oportunidades de aplicação das tecnologias do programa Mover.
- DEMESTAA 2.0: Avaliação dos ganhos possíveis após todas as implementações realizadas.
Resultados esperados
No modelo atual, o fabricante do equipamento original (OEM) contrata cada ferramentaria para a execução de todas as etapas de desenvolvimento, resultando entre outros, em problemas de fluxo de caixa [2] [3].
Figura 4.– Modelo atual onde OEM contrata cada ferramentaria para a execução de todas as etapas de desenvolvimento. [2] [3]

No novo modelo, com o avanço dos subprojetos desenvolvidos nessa nova etapa, espera-se a implementação de um novo modelo de negócio, onde a OEM passa a contratar a plataforma, que subcontrata um especialista em cada fase de desenvolvimento e garante dessa forma, o fluxo financeiro.
Figura 5.– Modelo proposto em que a OEM contrata a plataforma [2] [3]

Benefícios diretos para a sociedade brasileira
O projeto visa contribuir diretamente para com a sociedade brasileira por meio do desenvolvimento, aplicação e difusão de melhorias para ampliar a competitividade de ferramentaria brasileiras, proporcionando o incremento da participação das ferramentarias brasileiras, não só no mercado nacional, mas também no mercado mundial, representatividade global, crescimento econômico e os consequentes desenvolvimentos tecnológicos e geração de postos de trabalho e empregos.
Agradecimento
O presente trabalho está sendo realizado com apoio financeiro da FUNDEP - Fundação de Apoio da UFMAG - Linha IV - Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas - Programa Prioritário do Mover (Mobilidade Verde e Inovação), com coordenação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), e com parceria com pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Referências
- Ferramentaria no Brasil: Quais as principais dificuldades e oportunidades? (Manufatura Digital), 2021. Disponível em: (https://www.manufaturadigital.com/ferramentaria-no-brasil-dificuldades-e-oportunidades). Acesso em: 06/08/25.
- Lançamento de Projeto Mover: Demonstradores 2.0, 2025. Disponível em: (https://www.youtube.com/live/ruJsFZ5Bbzs). Acesso em: 01/08/25.
- Demonstradores de Estampagem - A contribuição dos demonstradores para o setor ferramental (equipes ITA & FGV), 2024. Disponível em: (https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/1775d49b-ba04-4e84-9968-dc4905acdda4/conten). Acesso em 08/08/25.
- Projeto de Demonstradores de ferramental terá segunda fase de execução com investimento R$ 33 milhões (FUNDEP - Fundação de apoio da UFMG). Disponível em: (https://mover.fundep.ufmg.br/projeto-demonstradores-segunda-fase-execucao-33-milhoes/). Acesso em 10/08/25.
Artigo da Edição 40 do Informativo PesquisABC.
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